Quinta-feira, 13 de Julho de 2006

Memórias do Regimento de Cavalaria 8

        Uns meses antes de o Esquadrão 2640 ser formado, corria o ano de 1969, fui destacado para a sua unidade mobilizadora, o Regimento de Cavalaria nº 8, sedeado em Castelo Branco. Tudo para encabeçar a instrução de cerca de centena e meia de recrutas.
        Rapazes ordeiros e pacatos, das mais diversas proveniências. Mas, como era natural para quem não sonhava com a carreira das armas, estavam mais motivados pelo fim-de-semana do que pelas matérias ministradas. Assim, à quinta-feira, os comandantes de pelotão, no seu mais puro e generoso porreirismo, assediavam o meu gabinete para ver se conseguiam que alguns dos seus instruendos fossem para casa um dia mais cedo, ou regressassem um dia mais tarde. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. As razões eram as mais diversas e, a dar-lhe ouvidos, a tendência seria para que não aparecesse ninguém durante a semana…
        É fácil de prever que, ao tal porreirismo, se impunha da minha parte uma tendência para a dureza de ouvido. Calejado por vários anos a comer desse menu, já não me comovia facilmente com as desgraças e premências que anunciavam. O que não quer dizer que não considerasse alguns casos em que a argumentação fosse convincente e razoável.
        Um belo dia, apareceu-me no gabinete um dos tais comandantes de pelotão, acompanhado por um dos seus recrutas, para que ele expusesse pessoalmente o seu caso, a fim de conseguir uns dias de dispensa. Deixei-o falar, mas o pedido não tinha qualquer fundamento. Perante a insistência, tentei, através de um exemplo, explicar-lhe o que era um caso de força-maior que justificasse a sua ausência da instrução. Assim, contei-lhe um caso verídico de um soldado que teve que ajudar o pai a abrir um poço numa altura de seca, para não perder as colheitas.
        Mas o recruta não se deu por vencido. Na semana seguinte entregou, por escrito, um pedido de dispensa por causa do pai que tinha que abrir um poço. Achei piada ao descaramento, mas não me deixei comover. Porque, se o fizesse, seria um desastre. A acreditar nesses pedidos, haveria por esses campos fora mais de uma centena de pais de recrutas a abrir poços por todo o lado, para fazer face à seca. Mesmo em tempo de chuva, como era o caso.
publicado por Fernando Vouga às 23:01

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1 comentário:
De traumilla bimbi a 23 de Julho de 2006 às 20:08
Muito curiosa e interessante esta história, sobretudo por ser verídica. Pelos vistos, o Fernando ainda tem muito para contar - ou seja, muitos mais livros para publicar!

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