Segunda-feira, 2 de Outubro de 2006

No tempo da "Outra Senhora"

 

CONVERSAR COM SARDINHAS [1]
 
          Foi em Mafra, durante o almoço — na tropa chamam-lhe segunda refeição — que o oficial de dia notou que um soldado cadete do curso de oficiais milicianos estava a ter um comportamento estranho. Não comia e, aparentemente, estava a falar com as sardinhas que tinha no prato. Sardinhas estas que, diga-se em abono da verdade, não primavam pela frescura.
          Ao tempo, e já lá vão mais de quarenta anos, qualquer comportamento anormal nos refeitórios militares era quase sempre tido como suspeito. O que se justificava, pelo facto de o regulamento de disciplina militar em vigor na época ser muito rigoroso ao ponto de obrigar à aceitação, sem hesitações, de toda a alimentação que fosse distribuída. E o caso não era para menos, já que, como se sabe, a comida fornecida andava um tanto longe daquela que se pode ter no Tavares ou no Gambrinus, passe a publicidade. E qualquer tentativa de reclamação era reprimida sem hesitações.
          — Ó nosso cadete, está a falar com as sardinhas?
          O instruendo levantou-se, pôs-se em sentido e respondeu:
          — Estava sim senhor… É que, há dez anos, um irmão meu caiu ao mar e nunca mais foi encontrado. Estava a perguntar-lhes se, por acaso, o teriam visto.
          — E o que é que elas lhe disseram?
          — Que há dez anos já tinham sido pescadas!
 


[1] Esta história foi-me contada por um amigo, mas parece-me boa de mais para ser verdadeira…
publicado por Fernando Vouga às 18:56

link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De traumilla bimbi a 2 de Outubro de 2006 às 22:04
A arte de contar anedotas também passa por levar a crer que a história é verídica. E como anedota significa nada mais do que "história inédita", eu diria antes que essa história era boa de mais para continuar inédita!
De paulo1911 a 5 de Outubro de 2006 às 19:27
Observei muitas vezes, em mim próprio e noutros camaradas - em Mafra-, que o sentimento da responsabilidade do chefe domina o receio pela nossa própria pessoa. As veteranas, coitadas, ainda tinha o sentido da audição...Talvés as sardinhas possam dizer quais foram as cruzes de guerra conseguidas na secretaria...
Vou já ao mar buscar sardinhas!!!!!

Obrigado pela visita.
Paulo

Comentar post

E.Rec.2640

pesquisar

 

Setembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

Notas recentes

Só pode ser piada

Para quem gosta de ler

A luta armada na Guiné

Para quem gosta de ler

Para quem gosta de ler

A guerra na Guiné

Foi há 48 anos...

Despesa que não morreu

10 de Junho

Mas que golpada!

Arquivos

Setembro 2016

Abril 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Maio 2015

Abril 2014

Julho 2013

Junho 2013

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Fevereiro 2012

Maio 2010

Março 2010

Janeiro 2010

Outubro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Agosto 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Favoritos

Deixem os amigos em paz

Para onde vais, América?

Ligações

Visitas

conter12

E.Rec.2640

blogs SAPO

subscrever feeds