Quinta-feira, 2 de Novembro de 2006

Para Angola, mas com pouca força...

Zemba, Região dos Dembos - Angola

Pormenor do quartel do Batalhão

 

          Já lá vão mais de trinta anos sobre o termo da Guerra colonial. A História ainda está por fazer e, se não houver contributos daqueles que a viveram, corre-se o risco de, no futuro, prevalecer uma imagem distorcida dos acontecimentos. Sobretudo, há que fazer justiça e evitar a todo o custo que as Forças Armadas (FA) sejam transformadas em bode expiatório para os erros da política.
          Às FA, constituídas maioritariamente por conscritos, foi pedido um sacrifício incomensurável. Fizeram a guerra durante treze anos em condições impensáveis para os dias de hoje. Mal armadas, mal instruídas, mal alimentadas, mal compreendidas, deram o seu melhor, apesar de tudo.
          O texto que se segue serve para ilustrar uma das muitas dificuldades que afligiam os comandos que tiveram a responsabilidade de conduzir as operações no terreno.
 
          Quando, em 1973 fui mobilizado para Angola integrado num batalhão de atiradores, as dificuldades de recrutamento eram já enormes. Por razões de vária ordem, agravadas por uma grande percentagem de deserções e fugas ao serviço militar, o mínimo que se poderia dizer na altura é que já não havia pessoal que chegasse. Os comandantes das Companhias (unidades operacionais com cerca de 150 militares) eram milicianos, a cumprir pela segunda vez o serviço militar obrigatório; aos oficiais e sargentos milicianos, cada vez, eram-lhes exigidas menos habilitações literárias. Quanto aos soldados atiradores, nem se fala. Os mais aptos de cada incorporação eram açambarcados pelos pára-quedistas, comandos, fuzileiros e outras tropas especiais. O que nos restava era, em boa verdade, o que já não servia para mais nada. Bons rapazinhos, mas sem grande aptidão para o combate.
          E, como se tal não fosse já um quebra-cabeças impossível de resolver — toda a força combativa de uma unidade operacional residia na qualidade dos atiradores —, apenas recebemos metade dos que nos cabiam no quadro orgânico. Os restantes 114 atiradores foram-nos entregues em Luanda. Todos africanos de origem, provenientes do recrutamento local.
          Honra seja feita a esses jovens angolanos que, embora não se revelassem muito aguerridos em operações, portaram-se de forma exemplar no que toca a camaradagem, disciplina e comportamento. Dormiam nas mesmas casernas que os oriundos da Metrópole, comiam mesma comida, eram ordeiros e asseados.
          A grande diferença entre os atiradores europeus e africanos não estava na cor da pele ou na cultura. Estava na escolaridade. Enquanto a esmagadora maioria dos europeus era analfabeta, todos os africanos tinham a instrução primária completa.
          E eu próprio assisti, caso insólito, a soldados angolanos lerem ou escreverem cartas aos seus camaradas europeus…
 
publicado por Fernando Vouga às 22:23

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