Segunda-feira, 6 de Novembro de 2006

Cautela e caldos de galinha...

 

          Em 1971, no intervalo entre duas comissões em África, encontrava-me colocado em Santarém na escola Prática de Cavalaria. Se a memória não me falha, foi por essa altura que, por falta de pessoal, se admitiram no Exército as primeiras mulheres como escriturárias civis. Do antecedente, os únicos funcionários do sexo feminino eram mulheres da limpeza, pessoal diligente e discreto que quase não se notava.
          Um belo dia, encontrava-me no pátio contíguo à secção financeira a conversar com um sargento de provecta idade, dos velhos tempos da Cavalaria a cavalo. Choupana era o seu nome. Homem magro, de aspecto austero e cara chupada, era muito competente e prestável. Por isso, muito considerado por todos desde o Comandante ao mais jovem soldado. Desempenhava com um zelo inexcedível as funções de bibliotecário. Quem requisitasse um livro, uma folha de carta, uma revista, tinha logo o Choupana à perna mal passasse o prazo de entrega. Tratava e arrumava nas prateleiras os livros com um desvelo de enfermeira dedicada e passava horas a fio a reparar as cartas topográficas sempre que, pelos maus tratos sofridos em exercícios no campo, aparecessem rasgadas.
          Enquanto decorria a nossa amena conversa, passou à nossa frente uma jovem dactilógrafa recentemente admitida ao serviço. Sem ser particularmente bela, não deixava de ser vistosa, quanto mais não seja por ser a única mulher naquelas paragens. Os meus olhos seguiram o seu caminhar ligeiro e gracioso. Pormenor que, decerto, foi notado pelo meu interlocutor. Com um sorriso matreiro, perguntou-me:
          — Antigamente na tropa só havia cavalos. Depois, por não os haver em quantidade suficiente, fomos obrigados a comprar éguas. Só que, nas cavalariças, nunca mais houve sossego… Os pobres animais, para se encontrarem, chegavam a partir as correntes… Era uma confusão enorme. Por fim, foi necessário castrar os cavalos. Agora, que temos mulheres nos quartéis, será que nos vai acontecer alguma coisa?
publicado por Fernando Vouga às 22:04

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3 comentários:
De traumilla bimbi a 7 de Novembro de 2006 às 21:50
HAHAHA! Muito boa esta história!... E afinal, o que aconteceu aos homens?!
De Fernando Vouga a 7 de Novembro de 2006 às 22:50
É segredo de Estado. Estou convencido de que, por mim, nunca o saberá...
De Luís Alves de Fraga a 21 de Novembro de 2006 às 22:57
Estória deliciosa! Espertalhão o velho sargento!
A verdade é que, na altura, o que aconteceu...bom, é segredo de Estado, mas o que acontece agora já não é! Na viragem de coronel para major-general há qualquer tratamento estranho que as correntes deixam de se partir ou nem são necessárias correntes!!!
Será um problema de época ou sempre foi assim?

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