Domingo, 26 de Novembro de 2006

Amor de tia

 

          Dias antes de embarcar para Moçambique, a minha primeira comissão no Ultramar, aproveitando a curta licença que nos era concedida nessas alturas, fui a Lamego despedir-me da família. E uma das visitas obrigatórias nas deslocações à minha terra natal era a minha tia Amélia. Senhora viúva, já perto da casa dos setenta anos, mas que se via que tinha sido uma bonita mulher na sua juventude. Perguntou-me o que ia fazer e qual o meu destino.
          — Vou comandar uma companhia de atiradores. Tanto quanto se sabe, vamos para a região de Mueda, no norte da Província.
          — E esse lugar é bom?
         — Nem por isso, tia. Até agora tem sido considerado um dos mais perigosos de Moçambique…
          Ela ficou por momentos pensativa. Mas depois, de dedo espetado e com um ar de quem dá ordens, disse-me:
          — Olha, quando os terroristas começarem aos tiros, deixa os outros e mete-te atrás de uma árvore até tudo acabar. Não sejas burro…
publicado por Fernando Vouga às 00:16

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3 comentários:
De Paulo1911 a 2 de Dezembro de 2006 às 12:03
A ida para Africa...
Africa os seus mistérios, África a guerra, provocavam, segundo me disseram alguns familiares que lá estiveram, de forma geral, nos jovens na iminência de serem mobilizados, reações de receio, mas também de curiosidade. Naqueles tempos da Guerra do ex-ultramar os Portugueses tinham de África e da guerra um conhecimento povoado de mitos e fantasias construidos sobre a vida na selva e o contacto com as populações estranhas. Nem a arte e humor fizeram dos teatros de guerra diminuir a tristeza por lá terem ficado os melhores amigos camaradas em quem a morte não teve poder.
Como dizia um amigo: "Que nunca por vencidos se conheçam"

PS: Obrigado pelo comentário lá no meu "filhosdeumdeusmenor"
Abraço
Paulo
De A. João Soares a 6 de Dezembro de 2006 às 17:06
Caro Fernando Monteiro Vouga,
Agradeço a sua visita ao «Do Mirante»
Lá pode encointrar aquilo que penso da «condição militar».
Em boa verdade, os militares não devem meter-se m questiúnculas que possam tomar cariz partidário, e o sindicalismo na forma como funciona cá no rectângulo, conduz a divionismos o que mina a necessária coesão dos militares em momentos de perigo.
As restrições impostas aos militares, mais ou menos amaciadas, têm lógica. Mas o que não tem lógica é o Governo retirar as chamadas «regalias» que mais não são do que a compensação desses sacrifícios. O que não tem lógica é os políticos compararem os militares aos vulgares funcionáros e, depois, exigirem deles o cumprimento da sua parte do «contrato» das condições militares sem lhes darem direitos iguais aos dos funcionários públicos.
Temos políficos infantis que não sabem utilizar os muitos brinquedos que o Pai Natal colocou ao seu dispor.
Um abraço ao amigo cavaleiro e colega da blogosfera
da parte de
A. João Soares
http://joaobarbeita.bogspot.com
De Luís Alves de Fraga a 19 de Dezembro de 2006 às 00:06
Que tia deliciosa!
Eram assim as nossas tias. Não compreendiam vocações, emoções, ideais. Mas gostavam muito de nós. Queriam-nos inteiros de corpo, mesmo que de alma fossemos pequenos.
Hoje as tias nem pensam em dar conselhos como esses que nos contou; hoje, não precisam de os dar, porque entre os jovens são poucos aqueles que acreditam em ideais.
O mal será porque vivemos há 32 anos em democracia, porque a ditadura nos ensinou a ter ideais ou porque não há guerra nenhuma para se defenderem nobres princípios?

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