Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2006

Arrumar a casa

   

 

       Mesmo admitindo que as Forças Armadas estão isentas de favoritismos, compadrios, partidarismos e outros factores que poluem a ascensão nas carreiras dos militares, a promoção ao generalato, nomeadamente a Tenente-General, é inevitavelmente influenciada por variados factores conjunturais. Por exemplo, um oficial de elevado mérito e capacidade pode não passar de coronel porque, tendo o azar de fazer parte de um lote excepcional, simplesmente não teve vaga para a promoção. E o contrário também pode acontecer. O que explica, por vezes, serem promovidos verdadeiros lázaros (peço desde já perdão a quem servir esta carapuça pela linguagem algo desabrida que acabei de empregar). Em suma, um general não se poderá ofender se alguém lhe disser que teve muita sorte.
          Nesta ordem de ideias, quem chegar a oficial general, tem toda a legitimidade para se orgulhar. Mas não me parece que tal possa ser motivo para se ser arrogante. Pelo contrário. Terá, sobretudo, uma grande motivação para se dedicar ao seu trabalho e às suas altas responsabilidades com entusiasmo, generosidade e dedicação. E também com a humildade necessária para ultrapassar pruridos hierárquicos, quase sempre fruto de uma mentalidade ultrapassada em que a antiguidade é considerada um posto.
          Vem este arrazoado a propósito do pedido de passagem à reserva de quatro Tenentes-Generais da Força Aérea por se terem sentido ultrapassados por um oficial da mesma patente, mas mais moderno, que foi nomeado para Chefe de Estado-Maior do Ramo.
          Esses Generais estão no seu direito, embora não tivesse ocorrido nenhuma ilegalidade. Mas penso que não foram brilhantes na sua decisão de abandonarem as responsabilidades que voluntariamente aceitaram. À partida, ao serem promovidos, sabiam perfeitamente que a escolha do Chefe de Estado-Maior não recai obrigatoriamente no mais antigo. E mais, tendo sido formalmente informados por quem de direito e no local próprio do que iria suceder, não colocaram na altura qualquer objecção.
          Infelizmente o mal não é de agora. Os militares, e em especial os de mais alta patente, têm-se mostrado demasiado preocupados com o seu umbigo, em detrimento das suas responsabilidades, mormente no tocante à imagem das Forças Armadas perante o poder político. Estou a lembrar-me dos generais Delgado e Spínola, apoiantes incondicionais da ditadura salazarista, que se rebelaram contra o regime por lhes serem negados os cargos que ambicionavam. Estou a lembrar-me do caso recente da valentia serôdia do Almirante CEMGFA com a carta que enviou ao Ministro da Defesa em apoio dos seus subordinados. E não será preciso vasculhar muito na História recente para encontrar mais casos semelhantes.
          Não será, portanto, necessário ser-se muito perspicaz para se perceber que a classe política tem muitas razões para desconfiar dos militares. Penso que, nestes tempos difíceis que os militares atravessam, todos nós devemos fazer um exame de consciência. Porque os nossos Generais são um produto das Forças Armadas que temos. Talvez sejam o resultado de uma mentalidade demasiado militarista que não se coadunará com uma sociedade verdadeiramente moderna e democrática. Pelas razões apresentadas e eventualmente por outras de que não trata esta nota, teremos também algumas culpas pelo que nos está a acontecer.
          Por tudo o que ficou aqui dito e, obviamente, pelo muito que ficou por dizer, sou de opinião de que vai sendo altura de arrumar a casa. E só depois é que se poderão fazer as devidas exigências a quem nos governa.
 
 
publicado por Fernando Vouga às 21:09

link do post | comentar | favorito
|
4 comentários:
De A. João Soares a 21 de Dezembro de 2006 às 21:58
Uma análise muito completa e clara.
Não é «politicamente correcta», ao gosto dos generais, arrogantes e orgulhosos das suas estrelas.
Há pouco tempo, um general oriundo de cavalaria, acabado de passar à reforma, dizia que os militares têm que se mecher para conseguirem uma reforma nos vencmentos como fizeram os juizes. Só que o momento em que tinha algum poder para conseguir isso, tinha passado e depois, como reformado, deixou de ter poder. É um caso típico da inacção dos generais no activo, e depois queixam-se de ninguém lhes dar importância.
Felz Natal e Próspero Ano Novo
A. João Soares
De Fernando Vouga a 22 de Dezembro de 2006 às 00:07
Caro João Soares
Não tenho grande simpatia pelo John Kennedy. Mas, nestes tempos em que todos exigem tudo e mais alguma coisa e se esquecem das suas obrigações, penso que será de lembrar esse Presidente dos EUA quando exortou os seus cidadãos a preocuparem-se "não com com aquilo que a América poderia fazer por eles, mas com aquilo que eles poderiam fazer pela América".
Bom Natal para si também.
De Luís Alves de Fraga a 23 de Dezembro de 2006 às 23:47
Caro Fernando Vouga,
Gostei da clareza com que colocou o assunto, contudo - desculpar-me-á - não concordo com a discordância da passagem à reserva dos oficiais generais. Não concordo por alguns motivos: a) A nomeação do CEMFA foi feita na 5.ª feira anterior à 2.ª em que tomou posse - até essa data nem o gen . Taveira Martins sabia se lhe iam propor a recondução!!! (as desconsiderações estão neste ponto!!!); b) Como muito bem sabe, embora o Chefe de Estado-Maior seja o comandante do Ramo respectivo, na verdade, a cadeia de comando directa que exerce é muito pequena - quase só sobre os generais (tenentes) - ora, é de toda a justiça que alguém que chegou ao ponto de poder mandar em todos os generais (tenentes) e não manda possa não querer ser mandado (comandado) por alguém a quem não reconhece nem categoria nem autoridade real para o fazer, nomeadamente comandá-lo. Se o cargo fosse electivo entre os pares, já este argumento não era verdadeiro nem eticamente correcto, mas o cargo resulta de uma escolha feita pelo 1.º ministro segundo critérios desconhecidos (teoricamente) e confirmado pelo PR. Nestas circunstâncias fica quem quer e aceita ser comandado por quem foi escolhido.
Em tudo o mais, estou de acordo com o meu Amigo.
A casa tem de ser arrumada... Mas deve começar pelos políticos, já que são eles quem detem as rédeas do poder absoluto... Porque isto de vivermos em democracia é uma treta!!!! A democracia só é exercida de 4 em 4 anos; no intervalo é uma ditadura de uma maioria (quando é) momentânea. O resto são cantigas, pois os homens do Poder fazem o que querem sem se preocuparem com mais nada. Tudo para eles é legítimo a partir do momento em que são eleitos.
Um Bom Natal e um excelente começo de 2007.
De Fernando Vouga a 24 de Dezembro de 2006 às 00:05
Caro Fraga

Muito obrigado pelo seu comentário que esclarece certos pormenores que me escaparam. Não fazia ideia do que se passou com o TenGeneral Taveira Martins. Quem está de fora não racha lenha... E ainda bem que é como disse. Mas é para se esclarecerem as situações que os comentários existem.
Na minha longa carreira militar, algumas vezes (que me lembre foram apenas quatro) tive que bater o pé a superiores meus. Mas, se o fiz, foi porque tive o cuidado antecipado de não ter rabos de palha em que pudessem agarrar. E é o que penso que os militares devem fazer em relação aos políticos. Serem intransigentes em relação às obrigações deles mas, primeiro ,serem também intransigentes em relação ao seu próprio comportamento.
Bom Natal para si também.

Comentar post

E.Rec.2640

pesquisar

 

Setembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

Notas recentes

Só pode ser piada

Para quem gosta de ler

A luta armada na Guiné

Para quem gosta de ler

Para quem gosta de ler

A guerra na Guiné

Foi há 48 anos...

Despesa que não morreu

10 de Junho

Mas que golpada!

Arquivos

Setembro 2016

Abril 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Maio 2015

Abril 2014

Julho 2013

Junho 2013

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Fevereiro 2012

Maio 2010

Março 2010

Janeiro 2010

Outubro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Agosto 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Favoritos

Para onde vais, América?

Ligações

Visitas

conter12

E.Rec.2640

blogs SAPO

subscrever feeds