Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2006

Memórias do ERec 2640

 

          Uma barata! Não pode ser! Quase que vomitei o almoço. Os alferes não se contiveram e riram-se na minha cara. Uma vergonha. Mas tinham razão.
          Tudo começou a meio de uma manhã cálida e chuvosa. Um dos soldados de guarda à porta de Armas do Esquadrão trouxe à minha presença um negro que transportava com todo o cuidado um pequeno embrulho. Que o senhor doutor mandava este presente para nosso capitão. Rasguei curioso o papel e vi dentro um boião cheio de achar de manga verde. Rodei a tampa e o cheiro era delicioso.
          Já sei o que foi. Dias antes estivera a conversar com Dr. Sarcadandó, o delegado de saúde de Bafatá. Um goês gorducho e bonacheirão a quem falei de um caril que há cerca de dois anos comera em Moçambique em casa de um casal inglês, ambos nascidos na Índia durante o domínio britânico. A mulher do Dr., elegante no seu sari, parecia embevecida a ouvir-me falar das delícias da cozinha indiana. E em especial dos “achares” de manga verde e de limão. Recordei com saudades aqueles sabores, todos de especiarias feitos que, por si só, transformam o mais simples arroz branco numa iguaria de se lhe tirar o chapéu. E não só, porque o picante, de forte que era, fazia sair fumo pelos ouvidos…
          Às refeições dos dias que se seguiram à oferta, sempre que vinha a “vianda”, assim se designava o arroz na Guiné, eu abria o boião e espalhava um pouco do tal achar de manga. Insisti com os alferes para provarem aquela delícia. Mas desistiram à primeira dentada. Sabor estranho e demasiado picante. Mais deixam, disse eu despeitado. E daí para diante servia-me sem cerimónia, não me coibindo de fazer troça dos meus acompanhantes de refeição. Pobres ignorantes que não sabiam o que estavam a perder…
          Gozo efémero o meu! Porque, dias depois foi a minha desgraça. A meio do boião e misturada com os bocados de manga, apareceu o cadáver já despernado de uma barata. E enorme, como são as baratas da Guiné!
 
publicado por Fernando Vouga às 22:18

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5 comentários:
De doceKin a 3 de Janeiro de 2007 às 01:13
Blhack!!!!!
De Fernando Vouga a 3 de Janeiro de 2007 às 17:08
Cara amiga

Visitei o seu blog e gostei.
Tenho algumas respostas na manga.
Mas não consigo comentar.
De Anónimo a 3 de Julho de 2016 às 15:44
Hoje, dia 3 de Julho de 2017, decidii perguntar ao Mr Google pelo EREC 2640. E aqui cheguei...10 anos depois. Um pequeno atraso.
Tenho uma vaga ideia da "estória " do achar, pois creio que na altura eu não estaria no Esquadrão. Mas, sem querer comparar, os mosquitos na sopa já eram um complemento alimentar, mas uma daquelas baratonas, bom, isso seria uma refeição completa. Lá se foi o pitéu.
De Fernando Vouga a 3 de Julho de 2016 às 21:44
Gostava de saber quem é que escreveu este comentário. Apenas para lhe dar um abraço
De Rocha a 4 de Julho de 2016 às 23:14
O anómino, como dizia o meu primo Tóno Vareiro, vai certamente retratar-se, dizendo quem é. É alguém que conhece a casa, melhor do que a barata, que esta estava camuflada. Aguardemos pelo achar de manga...

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