Segunda-feira, 28 de Maio de 2007

Moçambique, 1966

Azeite e vinagre
 
  
Terras de Macondes (Imagem adaptada do Google Earth)
 
O sargento das transmissões, com ar de caso, passou-me para a mão uma mensagem insólita. O texto parecia estranho…
Não contive o riso, porque sabia bem o significado de tão desusada missiva. Com efeito, na véspera, vindo de Mueda em coluna militar, e a pedido do comandante da Companhia de Miteda, fiz um desvio para deixar alguns mantimentos em Nangololo. Esta localidade era apenas o que restava de uma missão católica, abandonada desde o começo da rebelião no planalto de Mueda. E. para que a guerrilha não a destruísse, foi decidido que lá permanecesse um pelotão (cerca de trinta homens) a garantir a segurança. Não dispondo de pista de aterragem para aviões ligeiros, só podia ser reabastecida por terra, embora eventualmente fossem lançados de avião sacos de correio e alguns mantimentos que resistissem à queda.
Nangololo não ficava em caminho, mas era uma autêntica obra de caridade andar mais uns quilómetros para evitar que se corresse o risco inerente a uma coluna auto, só para transportar umas dezenas de quilos. Naquelas paragens — estou a falar do célebre planalto de Mueda — as picadas estavam infestadas de guerrilheiros que, a cada passo, nos contemplavam com emboscadas, flagelações e minas.
Porém, ao receber a encomenda, o sargento encarregado dos géneros alimentícios de seu nome (real) Vinagre ficou horrorizado quando verificou que se tinham esquecido de fornecer o precioso azeite, sem o qual quase nada se pode cozinhar. Pediu-me então que, quando o avião dos frescos aterrasse em Muidumbe, a sede da minha Companhia, eu pedisse ao piloto para lançar uma lata de azeite no terreiro em frente da igreja.
— Mas isso é uma loucura. Não temos pára-quedas e a lata vai rebentar ao bater no chão. Isto se o piloto conseguir acertar com ela no vosso terreiro. O mais provável é cair no mato e os “turras” ficarem com o azeite.
Mas o sargento estava inconsolável. Fez-me prometer que eu faria uma tentativa. E que me enviaria uma mensagem a lembrar.
Chegado ao meu destino, mal recebi a mensagem misteriosa, mandei meter num saco de farinha uma lata envolvida em capim e, dias depois, convenci um piloto a fazer tiro ao alvo com ela…
E foi então que o sargento das transmissões percebeu a mensagem subjacente ao texto que me apresentara dias antes. Porque nele apenas constava:
vinagre se possível azeite”.
 
Igreja da Missão de Nangololo (Imagem actual captada na NET)
 
Muidumbe - 1966 - o avião dos frescos e do correio (DO27)
 
 
À laia de epílogo: Já que a história é verdadeira, sem tirar nem pôr, falta dizer o que aconteceu com o azeite. Para desgosto de todos, perdeu-se porque a lata rebentou ao cair.
 
 
publicado por Fernando Vouga às 17:17

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98 comentários:
De A. João Soares a 2 de Junho de 2007 às 17:06
Muitas dificuldades foram vividas nas realidades do mato, durante a guerra do Ultramar. Muitas foram resolvidas pelo improviso a que as situações obrigavam. O espírito inventivo estava presente e ajudou muito a suprir as carências institucionais para que a missão fosse cumprida. E hoje, há políticos que querem comparar os militares a um qualquer manga de alpaca que passa o tempo com o rabo numa cadeira no ar condicionado, em frente a um computador.
A esses políticos só desejo que Deus lhes perdoe, mas o mais depressa possível!
De Fernando Vouga a 6 de Junho de 2007 às 14:25
Caro João Soares
Eu sei que é difícil de acreditar. Mas em Miteda, TODOS os militares recebiam por dia um litro de água potável. Para beber e higiene pessoal. Banho, só quando chovia...
Em Muidumbe, onde estivemos um ano, não recebemos colchões para as camas. Em vez deles, usavam-se cartões das embalagens dos géneros. E os bornais serviam de travesseiro. Não tínhamos cartucheiras e, ao saltarmos das viaturas, os carregadores desapareciam no capim...
De nangololo mocambique a 14 de Abril de 2010 às 20:38
CART 7256 - "OS CICLISTAS"

Fomos os últimos a estar em NANGOLOLO de 1973 a 4 de Agosto de 1974.
Gostariamos de entrar em contacto com pessoas que estiveram em NANGOLO.-
nangololo.mocambique@gmail.com
De Fernando Vouga a 14 de Abril de 2010 às 22:42
Caro amigo

Convido-o a comparecer no dia 20 de Abril na Livraria - Galeria verney em Oeiras à 15 horas.
Assistirá a uma sessão da tertúlia "O Fim do Império". Nessa sessão será apresentado o romance da minha autoria "Caminhos Perdidos na Madrugada" cuja acção decorre em Moçambique em 1974.
De Lorenço cndutor da 1508 a 16 de Março de 2013 às 14:56
parabens ao comandante da 1510 que fez este blog para quem lembra tempos passados eu sou lourenço bigodes condutor da 1508 gostei bastante disto porque conheci bem a sena de azeite ou vingre eu estava em nangololo nessa data e estamos a lembrar coisas de há 48 anos atras 16/3/201

De Fernando Vouga a 16 de Março de 2013 às 19:58
Caro Lourenço

Muito obrigado pelo seu comentário.
Sofremos muito mas acabamos por ter saudades daqueles tempos. Éramos jovens.

Um grande abraço
De Rocha a 29 de Março de 2013 às 18:48
18ª. C.Comandos
...RUMÁMOS A NANGOLOLO , ONDE ESTIVEMOS CERCA DE 4 MESES, DORMINDO, QUASE TODOS OS NÃO GRADUADOS, NO INTERIOR DE UMA IGREJA DA MISSÃO QUE AÍ EXISTIA. EM CONDIÇÕES RAZOÁVEIS, SE COMPARARMOS COM VILA CABRAL. IGREJA COM ALTAR E TUDO! TERIA SIDO AQUI QUE SE INICIOU A GUERRA COLONIAL, TENDO OS "TURRAS" DECEPADO E POSTO SOBRE O ALTAR -ONDE OS BATOTEIROS JOGAVAM À LERPA- A CABEÇA DE UM MISSIONÁRIO.
EM DEZEMBRO DE 1969 PARTIMOS PARA MONTEPUEZ ...
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18ª. C.Comandos <BR>...RUMÁMOS A NANGOLOLO , ONDE ESTIVEMOS CERCA DE 4 MESES, DORMINDO, QUASE TODOS OS NÃO GRADUADOS, NO INTERIOR DE UMA IGREJA DA MISSÃO QUE AÍ EXISTIA. EM CONDIÇÕES RAZOÁVEIS, SE COMPARARMOS COM VILA CABRAL. IGREJA COM ALTAR E TUDO! TERIA SIDO AQUI QUE SE INICIOU A GUERRA COLONIAL, TENDO OS "TURRAS" DECEPADO E POSTO SOBRE O ALTAR -ONDE OS BATOTEIROS JOGAVAM À LERPA- A CABEÇA DE UM MISSIONÁRIO.<BR>EM DEZEMBRO DE 1969 PARTIMOS PARA MONTEPUEZ ...<BR class=incorrect name="incorrect" <a>MUEDA</A> , A CAPITAL DA GUERRA<BR><BR>Figuras típicas de Mueda ? Os Cantineiros (Santos e China). E a filha do China, que servia às mesas e por quem a idade também passou. O Jeremias (um burro que pastava nas imediações do quartel e com o qual se tiravam fotografias para atestar a passagem por Mueda . E algumas eram publicadas na "Coluna em Marcha".)<BR><BR>Dá para cantar no estilo de:<BR>"Um soldado na trincheira...", do Fernando Farinha, ou então no de Mueda que és uma mina..."<BR>Mas que cante quem souber mesmo cantar com estilo. É que se não estraga a letra!<BR><BR>Um soldado em Nangololo /Se não morre fica tolo/Fruto do isolamento/Escapando ileso em Mueda /Entra em órbita em Miteda /Devido a rebentamento<BR><BR>Disse um nosso camarada/Quando ao picar* * a picada/Por entre duas chalaças:/- Se em vez de vir uma mina/Viesse a filha do China/Dava um jeito do caraças!<BR><BR>Mas por nossa triste sina/Não vinha a filha do China/Vinha a mina detonada/E vinha a evacuação /Seguida da frustração/De perder um camarada<BR><BR>Digamos coisas bonitas/Nossas vidas são finitas/E o Outono está a chegar/Eu espero que os meus amigos/Já livres daqueles perigos/Mandem bocas p'ra animar!<BR><BR>*Para os leigos: picar* , é detectar minas com recurso a uma vareta de ferro.<BR><BR>2011-02-08<BR>Rocha<BR>
De Fernando Vouga a 29 de Março de 2013 às 21:09
Caro amigo

Apreciei o seu comentário, que me recorda tempos muito difíceis. Foi uma experiência muito intensa mas, no meio disso tudo, foi tempo de fazer grandes amizades.
Quanto à cabeça do missionário, deve haver alguma confusão. Os missionários de Nangololo, antes do início da guerra, estavam feitos com os turras. O que aconteceu, foi matarem o padre Daniel dessa missão, que seguia pela picada num Land Rover branco, que confundiram com o do chefe de posto de Muidumbe, que era igual. E, em vez de matarem o chefe de posto, mataram o amigo deles.

Um abraço
De Rocha a 31 de Março de 2013 às 12:28
Caro Fernando Vouga
O que eu disse sobre o Padre Daniel, foi de algo que li superficialmente. Sem a pretensão de ser a verdade.
Algumas coisas de Nangololo:
O pomar de laranjeiras, junto a um embondeiro grande. Algum padre machambeiro...
A equipa de segurança à pista, para dar protecão à avioneta (táxi aéreo). Que só descia na sua presença.
E o piloto, a picar sobre os embondeiros daquela baixa para nosso gáudio. Punhamo-nos colocados junto ao arame farpado para disfrutar do espectáculo.
A igreja, enorme, a rivalizar com a da minha terra.
E outras coisas.
Obrigado pela sua mensagem.
De Rocha a 8 de Abril de 2013 às 22:25
Do que vou enviando aos meus camaradas da 18ª.
Onde se fala de Nangololo, de onde se avistava, à noite, as luzes de iluminação de Muidumbe, onde estava aquartelado um conterrâneo meu:
MUDANÇA DE VILA CABRAL PARA NANGOLOLO
(Creio que 6 dias de viagem, em Nov.68)
Quando saímos de Vila Cabral para Nangololo viemos de comboio até Nacala e embarcámos aí numa fragata (Duarte Pacheco Pereira) com destino a Mocímboa da Praia. Isto porque a costa Moçambicana é bastante extensa.
De Mocímboa a Nangololo/São três dias de viagem/Pouco mais de 100 quilómetros/ De auto-estrada com portagem
Desembarcámos em Mocímboa da Praia, de noite, com auxílio de uns batelões ligados entre si por cabos. De manhã, reiniciámos a viagem para Nangololo, com passagem por Diaca, Curva da Morte, Sagal, Mueda, Miteda e finalmente chegada a Nangololo.
De Mocímboa a Mueda, pouco mais de 100 Kms., demorámos 2 dias.
Dormimos a primeira noite no Sagal.
Uma soneca dormida/No referido Sagal/E eis-nos já de partida/P'ra Mueda, a Capital
E dormimos a segunda em Mueda. Perdia-se imenso tempo por se ter de picar minuciosamente a estrada.
Mueda que és uma mina/Para o Santos e para o China/E para os tipos de influência/Mueda que tens por sina/Vender a água das pedras/Mais cara que a gasolina (De uma canção da época)
Estavam à nossa espera em Mocímboa da Praia umas viaturas para nos transportar. O condutor de uma das Berliets, equipada para rebenta minas (estava aquartelado em Muidumbe), era meu conterrâneo e tinha ido connosco no Niassa. Quando foi mobilizado, estávamos em Lisboa no Trem Auto, ele desatou a chorar. Não deixei de comentar o facto: -Então tu choras quando foste mobilizado e andas a rebenta minas?! De qualquer modo para morrer basta estar vivo como dizia o filósofo de Lourido. Ele adoeceu gravemente há uns tempos e já se foi. Passámos em Diaca, onde encontrei outro conterrâneo com quem andei na primária e até posámos os três da vida airada num "retrato" para a posteridade.
O nosso Comandante fez um aviso às tropas. Se houvesse algum rebentamento, que ninguém se atirasse para a berma, que poderia estar armadilhada. Volvidos poucos quilómetros, talvez devido ao calor, deu-se o rebentamento de um pneu de um caterpillar, que seguia em cima de uma viatura. Ouviu-se um grande estrondo. Pensámos que seria uma mina, mas não.
Vem Miteda, o sol a pino/Nós todos em procissão/E já se avista o destino/Nangololo da Missão
Foi com grande surpresa que me vi instalado dentro da igreja de uma missão, onde permanecemos cerca de 4 meses. O Marques, condutor, quando o criticaram, já cá, por não ir à missa, disse-lhes que 4 meses dentro da igreja equivaleria a missas até ao resto da vida.
Um abraço
2011-09-04
Rocha
De Fernando Vouga a 9 de Abril de 2013 às 01:03
Caro amigo

Muito obrigado por este seu testemunho, que muito valoriza este "Quanto mais quente melhor".
Já agora, esclareço que este era o mote do Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640, que comandei na Guiné nos anos 1969-1971.
Um abraço
De Rocha a 16 de Abril de 2013 às 19:47
Acerca do litro de água potável acima referido:

OS POSTOS DE DISTRIBUIÇÃO DE ÁGUA NO PLANALTO DE MUEDA.

Estes postos serviram de ponto de referência para relatar certas ocorrências, por vezes fatídicas, a que a nossa Companhia ficou ligada.
A viatura que se acidentou junto ao posto nº. x. Ou a mina que foi accionada junto ao posto nº. y.
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Retirado de um blogue:
... havia falta de água em todo o planalto de Mueda. Próximo passa o rio Chomba onde a administração construiu uma pequena barragem com sistemas de bombagem; também do rio Messalo (M’salo) eram aproveitadas águas para reabastecer as populações. Essa água foi levada até ao planalto para ser distribuída através de fontes que, para abrir a água era preciso meter uma moeda. O sistema não servia as populações, porque não havia moedas! Depois de alguns confrontos com as autoridades, tudo foi destruído.
...
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Quem não reparou nessa obra, que terá sido executada para abastecer uma zona carente de água e que me pareceu de extraordinária importância? Quer quanto à data em que foi feita, quer pelos fins visados. É que Mueda fica no Cu de Judas!
Sabendo, no entanto, que a administração local quis vender a água, pondo a funcionar um sistema de introdução de moeda, pareceu-me ideia de gente tacanha. Se os utentes não tinham dinheiro para accionar o fontanário, estava tudo condenado ao fracasso.

Do autor:
Chegou a água a Mueda/Para acabar com a secura/Não havia era moeda/Para introduzir na ranhura

Se oiço falar bem da água/Digo cá c'os meus botões:/-Prefiro mil vezes vinho/ Mesmo fraco, a dez tostões

Esta é Alentejana (que agora com o Alqueva já não seria assim às pinguinhas):
Dá-me uma pinguinha de água/Quero molhar a garganta/Quero cantar como a rola/Como a rola ninguém canta

Uma Albicastrense:
Corre a água corre/P'la ribeira abaixo/Tenho o meu amor/Lá para o Retaxo

Outra de Coimbra:
Fui encher a bilha e trago-a/Vazia como a levei/Mondego, que é da tua água?/Que é dos prantos que eu chorei?

E uma quadra Lisboeta da água? É que em Lisboa mete-se muita água. Quer na política, quer noutras áreas. Ainda agora na religião: O Jesus, que éramos os maiores...(no futebol, claro). Com alguma pena minha.
Alfama encheu-se de mágoa/E chora dias inteiros/Porque às vezes falta a água/No Beco dos Aguadeiros

E por agora não meto mais água. Vou entrar na doca seca.

2011-03-08
Rocha
De Fernando Vouga a 16 de Abril de 2013 às 21:25
Caro amigo

Os Macondes acreditaram nas promessas de distribuição de água no planalto. Mas sentiram-se enganados porque tinham de comprar uma ficha metálica redonda com um furo ao meio, que lhes daria direito a um balde de água. Mas cada ficha custava 50 centavos ou seja, uma "quinhenta". Daí a designação da "guerra da quinhenta".
O descontentamento foi enorme e o administrador de Mueda convocou a população para lhes explicar o inaceitável. Gerrou-se um tumulto que terminou num massacre, com fogo de metralhadora sobre a multidão. A partir daí, foi o que se sabe.
De Rocha da 18ª. a 23 de Abril de 2013 às 21:51
À volta e por dentro da igreja de Nangololo:

JOÃO JÚLIO PATINHO " O REI DA ZAMBÉZIA"

Anda Madalena/Vamos embora/Não há boleia!
Daqui para Quelimane/Vamos embora/Não há boleia!
...
Como não há boleia, anda lá, dá corda aos sapatos -ou a pé descalço?- que não há outro remédio.

Cantava o João Júlio Patinho, intitulado o Rei da Zambézia. Era um cantor Moçambicano de Quelimane, capital da Zambézia, daí o epíteto.
Depois do convívio de Lamego deste ano, confraternizámos familiarmente, acompanhados das famílias, eu, o Marques, o Casal e um camarada da Pesqueira, que esteve em Moçambique, Tete, uns cinco anos depois de nós. Este último, cantarolou a melodia acima referida, de que eu já aqui falei. Mas lembrei-me de uma peripécia acerca do cantor, que me marcou de forma indelével e que vos vou contar.
O Patinho, Militar moçambicano nosso contemporâneo, de raça negra, cruzou-se com a nossa Companhia por duas vezes. Ele fazia parte de um conjunto musical militar itinerante.
Estávamos em Nangololo, aquartelados na missão, quando ele apareceu pela primeira vez.
Nos trópicos é noite por volta das 18 horas. Ele veio acompanhado de outros camaradas, trazia a sua viola e presenteou-nos com várias interpretações num longo serão dentro da igreja na véspera da actuação geral. Deu-se ao luxo de cantar do conjunto portuense de António Mafra, aquela moda que fala de "O Tó de calças-de-sino/ E a Lecas de mini-saia".
Depois de terem cantado umas canções, apareceu um dos n/Furrieis -não me lembro quem-, a convidá-los para irem para a caserna deles fazer a festa. Seria bom para eles, para os cantores, aceitarem o convite. Poderiam beber daquilo de que gostassem e apanhar até uma carraspana. Mas o Patinho com muita simplicidade e com um sentido de camaradagem que eu não imaginava possível, agradeceu e disse-lhe mais ou menos isto:
-Eu estou aqui a festejar com estes soldados. Não posso ir para lá!
Ninguém comentou na altura, mas gravei e agora por gratidão para com o Patinho, estou a dar-vos conhecimento e a lembrar a importância do gesto a quem porventura se tenha apercebido disso. Eu fiquei estupefacto. Como é possível que um pretito de Quelimane tenha a sensibilidade e a perspicácia suficientes para entender destas coisas?! Ah Patinho, que pelo menos uma vez não foste o Patinho feio!

O problema não está
Na resposta que foi dada
Está no pedido indevido
Desse nosso camarada

Há coisas que não se pedem
Lembrá-lo nunca é de mais:
Ir p'ró céu; amar as freiras;
E outras coisas que tais

O que me disse uma freira:
(Vai parecer-vos uma asneira
Mas gravei e não olvido)
-Mesmo parecendo incorrecto
Faz-me um pedido (in)discreto
Quem não pede não é ouvido!

24 de Setembro de 2012
De Fernando Vouga a 24 de Abril de 2013 às 10:11
Caro amigo

Mais uma vez, obrigado por mais uma bela história a recordar velhos tempos.
Um abraço
De Rocha a 7 de Maio de 2013 às 22:17
Fernando Vouga
Caro amigo
Mais uma brincadeirinha, sem pedir nem esperar agradecimento:
POR TERRAS MACONDES

Nangololo é uma prisão/Mas ninguém chora pelos cantos/Quem dorme dentro da Igreja/Lá reza, joga e vê os Santos

Amanhã vou para Miteda/Nomadizar, sempre alerta/Fosse eu à praia a Mocímboa/Enchia o olho pela certa!

Não ia para ver cachopas/Não sou assim depravado/Ia ver os batelões/Onde fui desembarcado

E passava por Mueda/Sagal, Curva-da-Morte/Se perdesse só uma perna/Diria que tive sorte!

Pensaria, ao regressar/A Nangololo, à missão/Ainda me falta outro ano/Um tempo do caralhão!

2013-05-07
Rocha
De António Sousa Maciel a 20 de Maio de 2013 às 18:06
Amigo Rocha, julgava que guardava essas histórias para a página da 18.ª e afinal também anda por estes lados.
Ó Nangolo que aqui te escondes/Terra de turras e de Macondes. Ai é só mato É mato grosso/Quem faz patrulhas não faz por gosto/É campim loiro, capim dourado/deita-se o fogo, tudo acabado/Eu já estou farto, já estou cansado/Quero ir embora para outro lado.
Nangololo, 1969/70.
De Fernando Vouga a 24 de Maio de 2013 às 13:55
Caro amigo

Seja bem aparecido.
Gostei do poema

Um abraço
De António sousa Maciel a 12 de Junho de 2013 às 15:31
Para o Fernando Vouga e para o Rocha.
Música: If You're Going To San Francisco
Letra:

Se tu fores a Nangololo,
leva flores p'ro teu caixão,
porque em terras de Nangololo
aquilo não anda nada bom.

Há minas pelas picadas
Há turras nos matagais
Há peitos dilacerados
E bocas soltando ais.

Se tu fores .......

Um abraço
Maciel
De Fernando Vouga a 12 de Junho de 2013 às 19:08
Caro amigo

Obrigado pela canção. É a primeira vez na vida que alguém me dedica uma.
Por sinal, sempre gostei imenso da "If you are going to San Francisco".
Um abraço
De CARLOS CAMPOS a 21 de Dezembro de 2014 às 22:57
PESQUISAVA NA NET SOBRE O JJPATINHO QUANDO ENCONTREI ESTA MEMÓRIA FELIZ. O PATINHO JÁ FALECEU, MAS NÃO SEI QUANDO...TALVEZ VAI PARA MAIS DE 20 ANOS. EU APRESENTAVA O TAL ESPECTÁCULO DO GRUPO RECREATIVA DA REGIÃO MILITAR DE MOÇAMBIQUE. ESTIVE NESSA DATA EM NANGOLOLO. NÃO CONHECIA ESSA HISTÓRIA.MAS ESSE ERA O PATINHO. LEMBRA-ME O CRISTO GRANDE DE PAU PRETO DA IGREJA-CAMARATA, QUE DAVA VONTADE DE ROUBAR. ESSA VIAGEM DO GRUPO FOI EM MEADOS DE DEZEMBRO DE 1969. A VIAGEM DE MUEDA PARA MITEDA TEVE REBENTAMINAS A VOAR E
RAPAZ COMANDO ESMAGADO PELA BERLIET. TIREI O CONDUTOR QUE FICOU COM UMA PERNA PRESA E UM CAMARADA QUE ESCAPOU DEBAIXO DO CARRO, CARREGADO DE CIMENTO, MAS FICOU COM UM BRAÇO ENTALADO NAS ARMAÇÕES DA LONA, EM DESCAPOTÁVEL, SE TODOS JUNTOS ATRÁS DA CABINA. VI-O MAIS TARDE NO HOSPITAL DE NAMPULA,
PORREIRO, COM UM A MÃO ENGESSADA A UMA TÁBUA.
BOM, SAUDADES...MAS ANDO Á PROCURA DE REFERÊNCIAS SOBRE O PATINHO, A NIVEL DA RÁDIO DE MOÇAMBIQUE. DO SEU MELODIOSO ASSOBIO E DA
IMITAÇÃO DA VOZ DA MULHER: DAQUI A QUELIMANE
NÃO HÁ BOLEIA.- PÁRA MATATEU, ESTÁ CANSADA. ESTÁ PARVA OU QUÊ ? VOC~E NÃO VÊ QUE DAQUI A QUELIMANE NÃO HÁ BOLEIA ( E VOLTAVA A CANTAR) ANDA MADALENA...
AGRADEÇO ESTA VIAGEM NO TEMPO
UM ABRÇ
CARLOS CAMPOS
De Rocha a 24 de Dezembro de 2014 às 12:38
Carlos Campos
Agradeço o seu comentário. Irei, entretanto, responder-lhe para falar do poema do José Régio, então recitado no dito espectáculo. Do Lira da m/Companhia, que faleceu esmagado pelos sacos de cimento. E de um ou outro pormenor que me ocorra.
Manifesto a minha satisfação pela sua intervenção.
Um Abraço
Rocha
De Rocha a 24 de Dezembro de 2014 às 14:12

De Carlos Campos a 21 de dezembro de 2014 às 22:57
-Campos:
Pesquisava na net sobre o JJPatinho quando encontrei esta memória feliz. O Patinho já faleceu, mas não sei quando... Talvez vai para mais de 20 anos. Eu apresentava o tal espectáculo do Grupo Recreativo da Região Militar de Moçambique. Estive nessa data em Nangololo. Não conhecia essa história. Mas esse era o Patinho. Lembra-me o cristo grande de pau-preto da igreja-camarata, que dava vontade de roubar. Essa viagem do grupo foi em meados de Dezembro de 1969.

-Rocha:
(Respigos de historietas que tenho contado)
HOJE VOU FALAR UM BOCADINHO DE NANGOLOLO
(Onde teríamos permanecido à volta de 4 meses - de princípios de Setembro/69 a mais de meados de Dezembro do mesmo ano)
...
Fomos visitados em Nangololo por um grupo itinerante de artistas. Do João Júlio Patinho (Anda Madalena/vamos embora/não há boleia...) ao fadista que cantava aquele fado do Gago Coutinho (Ó Madragoa, que és a mãe da minha mãe...), passando pelo declamador do Cântico Negro do José Régio (Vem por aqui! Dizem-me alguns com os olhos doces...), que depois o n/Furriel Machambeiro tentava imitar. E muitos outros. Quando estivemos em Montepuez –para onde seguimos de Nangololo-, voltámos a assistir ao mesmo espectáculo no cinema local. Mas sempre com agrado, porque os eventos culturais eram escassos.
...
O Fadista seria da zona de Valongo.
Também conviria falar do Procópio --- e da sua flauta.

-Campos:
A viagem de Mueda para Miteda teve rebentaminas a voar e um rapaz comando esmagado pela Berliet. Tirei o condutor que ficou com uma perna presa e um camarada que escapou debaixo do carro, carregado de cimento, mas ficou com um braço entalado nas armações da lona, em descapotável, se todos juntos atrás da cabina. Vi-o mais tarde no hospital de Nampula, porreiro, com um a mão engessada a uma tábua.

-Rocha:
O soldado morto, da n/Compamhia, foi o Lira. Um rapaz do Porto, que teve uma juventude um bocadinho problemática, com passagem pela Escola Educacional de Leiria. Que volta e meia contactava a 18ª, para acompanhar a evolução dele. Rebelde quanto baste, mais por relatos de camaradas do que por vivência dos acontecimentos, teve um fim trágico.

-Campos:
Bom, saudades... Mas ando á procura de referências sobre o Patinho, a nivel da Rádio de Moçambique. Do seu melodioso assobio e da imitação da voz da mulher: daqui a Quelimane
não há boleia.- pára Matateu, está cansada. Está parva ou quê ? Você não vê que daqui a Quelimane não há boleia! ( e voltava a cantar) anda Madalena...
Agradeço esta viagem no tempo.
Um abraço
Carlos Campos

-Rocha:
Agradeço a informação.
Para mim, que levei comigo o coração para ver e relatar o que por lá se passou, é sempre com grande prazer que revivo estes momentos.
Um abraço
2014-12-24
Rocha
De Rocha a 24 de Maio de 2013 às 15:00
Amigo Maciel
Há coisas que não se podem/devem guardar, porque são do domínio público.
O forno de Nangololo, utilizado pela 18ª de Comandos, desmoronou-se. Como resolver a questão? O N/1º., meu especial amigo/camarada, um velho, mas com 45 anos, aventou a hipótese de se fritar a massa. No final consertou-se a coisa rapidamente e não foi necessária a fritura. Mas o poema apareceu:

PADEIROS
O Ribeiro e o Morais/De pão sabiam de mais/Eram mesmo um caso à parte/Mas para seu desconsolo/Cai o forno em Nangololo/Quase lhes estragava a arte

Jorna de noite o padeiro/Para ter pronto o casqueiro/De manhã p'rós comilões/Sempre com a mão na massa/Que para sua desgraça/Não dá p'ra comprar melões

Era um Pão Quente da moda/Ambos sabiam da poda/Sempre me surpreendi/Numas instalações toscas/Não sei se faziam roscas/Dizem que sim, mas não vi...

2011-12-26
(Com um grande abraço de amizade a quem por aqui passar, e especialmente para quem também passou por Nangololo)
De Rocha a 5 de Junho de 2013 às 22:26
Eu hei-de ir a Nangololo/Pela fresca, ao pôr-do-sol/Ver descer o astro-rei/E filmar o arrebol*
Ver como está a minha igreja/Onde eu dormi uns mesitos/E as osgas, a zero à hora/À procura dos mosquitos*
Ver o obus, barulhento/Bater a zona para norte/Ouvir música Maconde/E com um pouco de sorte*
Cruzar-me com Cavandame/Que, do alto da menagem/Na língua própria da zona/Lançava a sua mensagem*
5 de Junho de 2013
Rocha
De Rocha a 21 de Junho de 2013 às 21:02
Mais uma brincadeirinha à volta da Missão de Nangololo:

A MADRINHA AFECTUOSA
Quando se está apaixonado, fazem-se promessas, que nem sempre se cumprem. Ele tinha dito que fazia questão de se casar com cerimónia religiosa. Mas depois abandalhou-se. Esteve tanto tempo a dormir dentro da igreja de Nangololo, que se enfadou do ambiente e da namorada.
A namorada andava fula, dado o notório desinteresse do nosso camarada. Ele já lhe escrevia com menos assiduidade. A Madrinha de Guerra era muito simpática. E para ver se o apanhava na rede, desfazia-se em mesuras.
Quando a Mariazinha soube de algo, porque a Madrinha era sua conterrânea, escreveu-lhe um aerograma de escacha-pessegueiro. Embora sem nomear quem quer que fosse, insinuou que haveria alguém a envenenar a relação.
Ele não gostou e em resposta, enviou-lhe estas quatro quadras:

Ó minha Mariazinha/Que andas zangada comigo/Manda-me embora, agradeço/Nem me arrelio contigo

Já tenho um ancoradouro/Zarpo daqui, vou para além/Sou solteiro e bom rapaz/Tenho quem me queira bem

Essa tal de que te falo/Que anda por mim embeiçada/Por agora é só “Madrinha”/Mas há-de ser namorada

Se acaso a coisa der certo/Acredita, caso rico/Não mais esquecerei a tropa/Sei lá se não “Meto o Chico”!

“Madrinha (de guerra)” » Aquela se se correspondia com um militar no Ultramar.
“Meter o Chico” » Seguir a vida militar.

17 de Junho de 2013
Rocha
Um abraço
De Mpwepwe a 29 de Julho de 2013 às 21:29
Viva macodes.
De Fernando Vouga a 30 de Julho de 2013 às 08:50
Massala mumi?

Olá amigo

É para mim uma honra ter um comentário de um Maconde.

Um abraço

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