Sexta-feira, 24 de Março de 2006

Bafatá — De Vila a Cidade






            Chegou o dia do grande ronco[1]. Um ronco como este, nunca se viu em toda a Guiné, desde Buruntuma aos Bijagós, desde Farim a Catió.

             Ainda antes do alvorecer, gentes de todo o lado e de todas etnias da região marchavam em enormes gru­pos, engalanados com as suas bandei­ras e cartazes patrióticos, em direcção a Bafatá, que ia ser ele­vada à categoria de Cidade. Sobretudo fu­las, mui­tos fulas do Gabú, do Cossé, de Geba, de Piche, de Canquelifá, de Bam­badinca, de Jabi­cunda, de Contúbuel, de Pirada, de Sare Ba­car, de Cabuca de Canjadude, sabe-se lá. À frente de al­guns desses grupos, o imponente régulo, a pé ou a cavalo, conforme as posses, mas de espada de­sem­ba­i­nhada, cinturão, tala­barte, capacete colonial e ga­lões de oficial de se­gunda linha. Tudo isso por cima do majes­toso albor­noz. As mulheres vestiam-se dos mais ri­cos trajes onde predominavam os pa­nos coloridos e as sedas com borda­dos a ouro. Grandes brincos nas orelhas e pulseiras por quase todo o corpo. Ca­beças enrola­das em pa­nos visto­sos. Milhares de homens e mu­lheres vinham a pé, mas em festa, a tocar e a dan­çar.

            Na vila, à medida que a multidão ia chegan­do, dan­çava-se freneticamente ao som dos mais variados instrumentos. Pequenas matracas, tambo­res, gaitas de cana, instrumentos de corda, enfim, tudo servia para impor a pequenos, grandes, ho­mens e mulhe­res a lei do ritmo, ignorando a música difundida pelos altifalantes espalhados por todo o lado. De quando em quando, figuras totalmente vestidas de capim con­torciam-se e de­ambulavam pelas ruas ao som da música de fundo.

            Lá em baixo, nos jardins junto ao rio Geba, sobressaía um enorme palanque que iria servir de tribuna para a grande cerimónia.

           Junto à pista de aterragem e à placa de esta­cionamento de aeronaves, apinhavam-se milhares de pessoas em festa. Aqui, davam-se os últimos preparativos. O admi­nistrador fazia repetir as vezes que fossem necessárias até sair certo, uma manifes­tação espontânea na qual, parte selec­ciona­da da multi­dão iria romper o cordão de segu­rança para saudar o «homem grande» que vinha da Me­trópole e, as­sim, dar-lhe vivo testemunho da sua simpatia e fideli­dade...

            À beira-rio ao lado do palanque, nos fios da electricidade, pousavam alinhadas centenas de an­dorinhas, enquanto no ar, outras tantas evoluíam em grupos compactos, num sincronismo impressio­nante de au­têntico bailado. Os meninos fulas da mocidade, farda­dos de camisa verde e calção ama­relo, com os bivaques castanhos nas cabeças, agita­vam frenéticos as suas bandeirinhas verdes-ru­bras, for­mando alas à direita da bancada dos convi­dados. Estes, à medida que che­gavam, procuravam, de convite em punho, o lugar que o protocolo lhes des­tinara. Senhoras saídas do cabeleireiro, ves­tidas e penteadas a preceito e cobertas de jóias, militares aprumados nas suas fardas brancas, clérigos de faixa púrpura, civis de fato es­curo. Tudo a postos.

            Num território contaminado pela guerra, a vila de Bafatá — Báfata, no dizer das gentes — era um autên­tico oásis de paz e tranquilidade, bem no centro da Guiné. Situada na região Leste, era a terra mais distante de todas as fronteiras, o que a protegia dos tentáculos da guerrilha.

            Embora pequena, era muito cosmopolita, dentro de critérios africanos. Numa posição central, onde as pessoas e bens podiam cir­cular em razoá­vel segurança e liberdade, Bafatá era o ponto de encontro e passagem de informações, gentes, mer­cadorias, cultu­ras, religiões e interesses. Uma formosa povoação situada num es­porão na confluência dos rios Geba e Colufe. Em cima, no planalto, estendia-se uma imensa ta­banca [2] desenvolvida à roda de uma belíssima mesquita de tijolos rendilhados pintados de bran­co. Este bairro nativo, onde o casario se misturava com palmeiras e enormes mangueiras, estendia-se até à estrada asfal­ta­da que, vinda de Bambadinca, levava à vila de Nova Lamego. Na passagem por Bafatá, esta es­trada era interrompida por uma ro­tunda de­cora­da por um sin­gelo monumento ao is­lamismo, em forma de portal árabe. Daqui descia, em direc­ção ao rio Geba, a avenida principal. Ainda no pla­nalto, mais para sul, vira­das para o rio Colufe, fi­ca­vam as missões ca­tólicas, bem como tabancas mais pequenas. Nas margens das muitas es­tra­das e cami­nhos, viam-se lavras onde predominava a man­car­ra e a mandioca.

            Era na encosta para ambos os rios que cres­cia (e continua a crescer) a vila propriamente dita, com as suas ruas comerciais, casas de habitação em alvenaria, a administração, a igreja, a pensão resi­dencial, o clube e respectiva piscina, o cinema e o estádio polivalente. Nos vários restaurantes espa­lhados um pouco por toda a área urbanizada, podia-se contar com bons pratos de bacalhau, marisco, deliciosos pombos bravos e enormes bifes à corta­dor, a escor­rer sangue. Os cafés e esplanadas abar­rotavam de soldados.

            Nas casas comerciais, cujos proprietários  eram na maioria libaneses, podia-se comprar de tudo, desde automóveis a electrodomésticos pas­sando pelos mais belos tecidos e tapetes orientais. Alguns destes artigos eram trazidos pelos gilas, es­pécie de caixeiros viajantes, cuja actividade se situ­ava entre a do almocreve e a do contraban­dista, e a que a Lei fazia vista grossa, para não interferir de­masiado com as tradições locais.

            Na margem do Geba, estendia-se um belo jardim com um parque infantil, donde sobressaía uma he­róica estátua de bronze. Por baixo, junto ao rio, ficava o porto fluvial, construído em vários ter­raços horizontais desnivelados, para poder funcio­nar em qualquer época do ano, consoante a cheia. À esquerda, erguia-se o mercado, construído em estilo inspirado no mudéjar e onde se vendiam, aos mon­tinhos, os mais variados produtos agríco­las.

           Numa enorme ravina, mais para norte, de­s­envolvia-se uma frondosa mata de árvores gigan­tescas onde proliferavam macacos, jibóias e enor­mes lagartos. Lá bem no fundo da ravina, à sombra do denso arvoredo, brotavam puras e frescas as nascentes de água que abas­teciam a terra. Era a Sintra de Bafatá, o único lugar ameno daquelas tórridas paragens.

A Igreja de Bafatá nos tempos do Esquadrão

  

A mesma igreja na actualidade

  

            A caminho da vizinha povoação de Geba, o rio do mesmo nome era atravessado por uma exce­lente ponte de cimento armado. Havia ainda outra ponte, sobre o Colufe, na estrada para Bambadinca. Esta, embora de ma­deira, não era menos impressi­onante. Era suportada por uma imensa estacaria de cibe, uma variedade de palmei­ra que, mergulhada em água, é pratica­mente eterna. Os rios, cal­mos e pachorrentos, são abundantes em peixe, la­gostins e até jacarés. Em determinadas épocas do ano, trans­formam-se em plácidos relvados, tal é o aspecto que lhes dá a co­bertura de uma planta aquática verde, parecida com os nenúfares. De vez em quando, surge uma ou outra piroga de pescadores com as suas redes, abrindo esteiras de água limpa no meio daquela espécie de prado. Na época das chuvas, os rios transbordam, alagando e fertilizan­do as terras planas das margens, as bolanhas [3], onde se cultiva o arroz, base da alimentação das popula­ções.

            Como tudo isto não chegasse, era em Bafatá que trabalhava o mais famoso ourives de toda aquela região africana, o célebre Xame, um homem enor­me de sorriso dourado. Ele próprio fabricou, no precioso metal, todos os dentes que tinha na boca! Da sua oficina saíam obras de arte de fino gosto, numa espécie de filigrana de prata ou ouro. As pe­ças mais cobiçadas eram os anéis, semelhan­tes aos de brasão, em que se podia gravar, em árabe, o nome do possuidor. O famoso artista, que não fala­va português, reproduzia na língua do Al­corão os sons tal como os entendia. Nem sempre os resulta­dos eram os mais es­perados, quando se pedia a al­guém, que soubesse árabe, para ler a gravação...

            À porta do mercado, homens sentados no chão jogavam pacatamente o ori, movimentando de acordo com as regras, se­men­tes de dendém ou pe­drinhas nas du­as filas de buracos abertos numa es­pécie de pe­queno barco de madeira. Putos no jar­dim brin­ca­vam às guerras com metralhadoras de pau, e latas de sardinha a fingirem carros tarta­ruga [4], como os do squádráu da tropa. Ao ve­rem europeus, interrom­piam as suas brincadeiras, para verem se ganhavam al­guns trocos:

            — Branco, parte peso[5]...

            Bafatá, era uma bela vila, ordeira, quente, pacífica e colorida.

            Aproximava-se o grande momento. Aterrou um helicóptero! Quem virá? Da porta do lado di­rei­to, ainda com  o rotor a girar e o motor a assobi­ar, saiu o Governador de farda branca. Estala uma grande gritaria, numa ovação em uníssono. Agra­decimentos de braços levantados. Mãos enlu­vadas de branco, uma das quais exibindo um pe­queno pingalim, ace­navam gloriosas para a multi­dão.

            Aterra um Dakota. Desta vez era o «homem grande» da metrópole. Um ministro em pessoa, em carne e osso, coisa raramente vista A população não resiste. Rompe o cordão de segu­rança e corre para o avião. Uma menina traz-lhe um ramo de flo­res. O ministro, comovido, pega na criança ao colo e dá-lhe um beijo. Uma multidão de flashes dispara em ra­jada, enquanto que o povo grita de júbilo. Si­paios, com bons modos e sorrisos benevolentes, re­primem aquela inesperada quebra de segurança e to­dos voltam aos seus lugares. Segue-se a revista à guarda de honra prestada por comandos africanos, irrepreensíveis na sua impecável formatura.

            O cortejo seguiu lentamente, sob um nevão de papelinhos verdes e verme­lhos. O povo, apinha­do nos passeios, enquanto gritava e aplaudia, avan­çava para a frente do Land Rover para ver mais de perto o «homem grande». Atrás das viaturas, o ba­nho de multidão seguia o cortejo avenida abaixo. Agita­vam-se imensos cartazes e bandei­ras.

            Finalmente as entidades, com cara de cir­cunstância, subiram à tribuna. Discursos, aplausos, hinos, vivós, e mais aplausos. Bafatá foi solene­mente declarada Cidade. A festa prolongou-se até à madrugada do dia seguin­te.

            Depois, foi o regresso a casa, à calma e à rotina do dia-a-dia.

            Os putos nas ruas continuavam:

            — Branco, parte peso...

            Bafatá, passou a ser uma bela cidade, ordeira, quente, pacífica e colorida.







Costa Monteiro




[1] Acontecimento importante, feito, aparato

[2] Povoação

[3] Lezírias

[4] Blindado

[5] Dá-me um escudo




publicado por Fernando Vouga às 21:34

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1 comentário:
De Fernando Vouga a 26 de Março de 2006 às 12:41
Por lapso, não foi inserida a seguinte referência: Publicado no livro de contos "Travessia" de Costa Monteiro (editorial Escritor, Novembro de 1966).

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