Terça-feira, 25 de Abril de 2006

Memórias de Piche, meio ficcionadas...

Morteiro de 60 mm

 

O SEGREDO DO SOLDADO ISMAEL
 
— Meu alferes, o Ismael está a dormir e não há meio de o acordar!
Esta notícia do Ismael deixou-me muito apreensivo. Só me faltava que, mais uma vez, levantasse problemas. Não era mau rapaz mas, por mais que se tentasse vigiá-lo, acabava os dias sempre embriagado. Não tinha mau beber, por vezes até tinha piada, mas ficava incapacitado para o serviço, fosse ele qual fosse. No quartel, ainda se poderia tolerar mas ali era um desastre. Tudo porque estávamos emboscados nas margens do Corubal, junto a uma cambança, à espera que um grupo de guerrilheiros tentasse atravessar o rio.
            — Fale baixo — segredei ao ouvido do furriel —, que os turras ainda nos ouvem! Mas o que é que ele tem? Não me diga...
            — É isso mesmo, meu alferes. Cheira a vinho que tresanda.
            — Mas então não o revistaram como de costume antes de sairmos para o mato? Não foi as ordens que dei?
            — Fui eu mesmo que o revistei e não levava vinho no cantil nem em parte nenhuma... Não sei como é que...
            — Foi alguém que lhe fez o jeito — interrompi —. Tenha paciência mas quando chegarmos ao quartel vamos averiguar o caso, para se saber quem foi. E agora, quem é que vai fazer fogo com o morteiro se os turras aparecerem?
            O furriel portador da má notícia pareceu-me um tanto confuso e apreensivo. O caso não era para menos. Conhecia bem os outros soldados e tinha a certeza de que ninguém tinha trazido vinho para o Ismael. Se, por um lado, todos gostavam dele, por outro, já estavam fartos de fazer os serviços que lhe competiam. Além do mais, no fundo, era a vida de todos que estava em perigo. E mais ninguém, para lá do Ismael, conseguia fazer daquela arma tão simples uma autêntica máquina de acertar nos guerrilheiros.
A arma que na sua essência não era mais que um simples cano de aço, tinha no lado superior uma espécie de tampa que, para além de segurar o dito cano, o vedava evitando assim a entrada de sujidade. Para disparar, o apontador pousava a base do cano no chão, numa superfície o mais dura possível e inclinava-o para o lado do inimigo. A maior ou menor inclinação, feita a olho, determinava a distância a atingir pela granada. Depois, era só meter as munições pela boca do cano, que elas escorregavam até ao fundo, onde um percutor fixo fazia detonar a carga propulsora. Ouvia-se um pum característico e segundos depois rebentava a granada, espalhando estilhaços nas hostes guerrilheiras.
A espera foi longa e cansativa — toda a atenção é pouca — e os guerrilheiros não apareceram. Talvez por culpa do informador da “nossa confiança”, que nos fornecera o local e a hora da passagem dos guerrilheiros. Quiçá uma simples artimanha para lhes facilitar os movimentos noutra passagem qualquer. Porém, o mistério do vinho do Ismael continuava a dar-me volta ao miolo. Trapaça assaz estranha que nunca me foi desvendada. Nem a mim nem a ninguém com responsabilidades de comando. Quem a fazia, fazia-a muito bem feita, não há dúvida.
 
 
Tarde quente e abafada na baixa lisboeta. Sentei-me numa esplanada para tomar uma imperial quando se aproximou de mim um sujeito de cerca de trinta anos. Fato cinzento escuro, camisa azul de colarinho branco, gravata, sapato de pala. Quem será, pensei.
            — O meu alferes não me conhece?
            Como de costume fiquei embaraçado. A cara não me era estranha, mas não fazia a mínima ideia de quem era. Estendi-lhe a mão para ter mais uns segundos para pensar, à espera de um milagre. Mas nada. Foi ele que salvou a situação: perante o meu ar pasmado, declarou sem mais delongas:
            — Então, sou o Ismael... da Guiné!
            Não consegui evitar o lugar-comum:
            — Mas não é possível!
            A conversa foi longa, a relembrar velhos tempos, como não podia deixar de ser. A guerra deixou marcas, mas também saudades dos tempos de juventude. Tempos que eram, em simultâneo, de esperança e de desespero, de sonho e de realidade. Tempo em que a vida era posta à prova e o sofrimento em comum fazia amizades verdadeiras e duradoiras. Ismael contou como se viciara no álcool, único refúgio que encontrou para um estado depressivo e profundo. O perigo, a total incapacidade para a vida militar — algo que contrariava de todo a sua maneira de ser pacífica e um tanto indolente —, o isolamento, o clima, o desgaste psicológico, tudo conspirava para lhe fustigar o espírito.
            — Já vi que não bebe — tinha recusado uma cerveja —. Como é que conseguiu?
— Fiz uma cura de desintoxicação. Foi duro, mas com o apoio da família consegui!
— E então o que é que faz na vida?
            Ismael parece que esperava aquela pergunta. Parecia sentir-se na necessidade de apagar a imagem que deixara nos tempos da Guiné de um pobre diabo sem eira nem beira, viciado na bebida e com um futuro mais que incerto. Foi com visível satisfação que falou do curso de gestão de empresas que tirou e da sua sociedade com o pai numa firma importante de exportação de cortiça.
            Fiquei admirado. Quem havia de dizer que aquela espécie de farrapo humano irresponsável que conheci na Guiné se tinha metamorfoseado num autêntico “executivo”, próspero, casado e pai de filhos!
            Conversámos durante mais de uma hora, a recordar os tempos da guerra, a perguntar por este e aquele, a saber novidades dos nossos companheiros de campanha, a lembrar os mortos e feridos, a relatar episódios, alguns tristes, alguns anedóticos. De repente, veio-me à memória o episódio da emboscada do Corubal.
            — Já agora que está tudo acabado e já não há o perigo de apanhar um castigo, responda-me só a uma última pergunta: Quem é que lhe levava o vinho para as operações?
            Ismael não conteve uma gargalhada sonora.
            — Então não sabe? Ninguém! Era eu mesmo. Antes de sair para o mato, lavava o cano do morteiro por dentro. Depois, ia à cantina dos libaneses e enchia-o de vinho. Ninguém dava conta. Eram três litros...
 
Adaptado do livro de contos “A COR DO SILÊNCIO” (Editorial Escritor, Outubro de 2003) de Costa Monteiro
 
 
publicado por Fernando Vouga às 17:16

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Segunda-feira, 24 de Abril de 2006

Restaurante "A TRANSMONTANA"

Antigas instalações do restaurante

   Foto retirada do Sítio "Fotos da Guiné"

 

          Em bafatá havia vários restaurantes, quase sempre cheios de militares que aproveitavam a sua passagem por esta cidade para comerem algo mais agradável que o rancho do quartel.

          Aqui servia-se, para além de outros petiscos, o famoso "Bife à Botas", um naco de boa e tenra carne de vaca com mais de três centímetros de espessura. Para acompanhar, e porque o calor apertava a sério, bebia-se cerveja. Os mais abonados garalmente preferiam um "Branco Seco Especial" bem gelado. E as gargantas agradeciam...

publicado por Fernando Vouga às 23:18

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Sábado, 22 de Abril de 2006

Fotografias

Bafatá - Mercado municipal nos dias de hoje

 

          Existe um "Sítio" que fala da guerra na Guiné e contém inúmeras fotos, nomeadamente de Bafatá, como a que se mostra na figura acima. O sítio chama-se "Luís Graça - Subsídios para a História da Guerra Colonial".

          Para aceder, basta clicar na ligação "Fotos da Guiné" na coluna ao lado esquerdo.

publicado por Fernando Vouga às 16:49

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Quarta-feira, 19 de Abril de 2006

Macacos

        Agora que a guerra acabou, e já lão vão mais de trinta anos, já é possível contar algumas histórias que, ao tempo, não era avisado divulgar. Esta tem a ver com macacos.

        Muitos soldados, no final das suas comissões, arranjavam um macaco para levar para a terra deles, como testemunho da sua estada em África. Porém, para que conseguissem embarcar com o dito, era necesário vaciná-lo. E era aqui que começavam os problemas. Tudo, porque a maioria dos pobres animais morria da vacina.

        Mas cedo os nossos soldados, ou não fossem eles portugueses, deram a volta ao texto, como se costuma dizer. Em vez de adquirirem um macaco, adquiriam dois: um para vacinar e outro para viajar com o certificado do defunto!

 

publicado por Fernando Vouga às 21:39

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Terça-feira, 18 de Abril de 2006

Dia da Cavalaria

        No dia 17 de Abril de 1971 comemorou-se em Bafatá o Dia da Cavalaria. Do programa constou uma formatura geral do Esquadrão nos terrenos em frente ao quartel e de um desfile motorizado pelas ruas da Cidade.

        Para as populações nativas foi mais um apreciado "ronco" da tropa Portuguesa.

publicado por Fernando Vouga às 23:44

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Segunda-feira, 17 de Abril de 2006

As Viaturas Chaimite

        Juntamente com as viaturas Chaimite V 200 mencionadas na nota anterior, O Esquadrão também recebeu uma viatura V 400. Estava equipada com uma torre MECAR de origem belga. Como armamento principal tinha um canhão de 90mm de baixa pressão, que disparava granadas parecidas com as de morteiro. Como armamento secundário, tinha no tecto da torre uma metralhadora FN de calibre 7,62 mm NATO. A sua guarnição era composta por um chefe de carro, um condutor, um apontador e um municiador.

publicado por Fernando Vouga às 18:18

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Domingo, 16 de Abril de 2006

As Viaturas Chaimite

          Em Março de 1971 foram fornecidas ao Esquadrão quatro viaturas blindadas de transporte de pessoal anfíbias "CHAIMITE" do modelo V-200, com as seguintes características:

  • Peso                    7,2 toneladas
  • Armamento         2 metralhadoras ligeiras HK21 de 7,62mm NATO
  • Vel. máxima        90 Km/h
  • Vel na água         5 Km/h
  • Autonomia            600 Km
  • Motorização          Motor Chrysler V8 a gasolina
  • Guarnição            4 (chefe de carro, condutor, apontador e operador rádio)
  • Transporte           7 atiradores

publicado por Fernando Vouga às 21:38

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Sexta-feira, 14 de Abril de 2006

As viaturas White

 

Em Março de 1970 foram distribuídas ao Esquadrão 8 viaturas blindadas de transporte de pessoal "White M3A1" em substituição das viaturas blindadas Granadeiro, há muito inoperacionais. Fabricadas nos E.U.A durante a Segunda Guerra Mundial, foram alvo de vários melhoramentos antes de serem mandadas para a Guiné, entre os quais a substituição dos motores White a gasolina por motores Perkins a gasóleo.
 
            Tinham as seguintes características:
  • Comprimento                5,63 m
  • Largura                         2,1 m
  • Peso aproximado          5,8  toneladas
  • Vel. em estrada            90 km/h
  • Arma principal               1 metralhadora Browning de 12,7mm
  • Arma secundária           1 metralhadora Browning de 7,62mm
  • Blindagem                    1,2 cm
  • Guarnição                     8
 
publicado por Fernando Vouga às 18:59

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Quinta-feira, 13 de Abril de 2006

Acção Psicológica

Na guerra, para vencer o inimigo, é desejável convencê-lo de que não lhe vale a pena continuar a luta. Às vezes resulta, outras vezes não. Mas vale a pena tentar.
A guerra na Guiné não foi excepção. Enquanto durou, foram empreendidas várias campanhas de acção psicológica para desequilibrar os guerrilheiros e as populações em nosso favor. E muitas delas tiveram bastante êxito. Nesse contexto, em complemento de outras acções, foram lançados no mato milhares e milhares de panfletos como o da figura.
publicado por Fernando Vouga às 00:03

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Sábado, 8 de Abril de 2006

Realidade transformada em conto...

O ASSASSINO DA VOZ MEIGA 
            Em 1971 as coisas começaram a complicar-se no Leste da Guiné. Região relativamente calma e se­gura, passou a ser alvo de um recrudescimento de acções da guerrilha que tentavam desequilibrar as po­pulações, aliciando-as pela persuasão e pelo medo. Tornou-se cada vez mais necessário de­mons­trar que havia organização e força mais que suficiente para garantir a segurança das populações e dissua­di-las, por esse modo, de se passarem física ou mo­ralmente para o «outro lado». Come­çaram assim a planear-se operações em maior escala.
            Eram movimen­tos de tropas para um lado, movimento de tropas para outro. Desta vez, tratava-se de um bombardeamento de artilharia contra uma base de guerrilha na Guiné Conacri. Com destino a Piche, começaram a concentrar-se em Nova La­me­go canhões e mais canhões, todos de grosso calibre.  
            A população de Piche já nem estranhava. De vez em quando, era aquilo. Umas vezes mais, ou­tras vezes menos, mas ia dar sempre ao mesmo. A povoação era atravessada por uma enorme coluna de viaturas levando pesados canhões a reboque, e lá ia aquela tralha toda, sempre para os mesmos sí­tios, Sutucó ou Co­ache. Mais tarde, por cima da coluna, uma da­quelas avi­onetas cin­zentas dava voltas e mais vol­tas en­quanto se ouvia o ri­bombar dos canhões e, mais ao longe, as gra­nadas a re­ben­tarem. Final­mente, todo aquele aparato re­gressava aos locais de origem e tudo voltava por uns tempos à calma e à norma­li­dade.
            Só que desta vez foi diferente. Os canhões che­garam, mas não seguiram logo para o mato. É que o dia «D» era só dali a dois dias.
            Neste dia, o comandante da operação, um oficial da guar­nição de Piche, é que não estava muito pelos ajustes. Sair às três da tarde para Co­ache para fazer tiro com a artilharia, não é ordem que se dê. Para mais, não tinha dúvidas nenhumas que do «lado de lá» já se sabia tudo. O segredo da operação estava mais que quebrado, com aquela gente e material dois di­as ali. O local de destino era fácil de adivi­nhar... A emboscada era mais que certa. Embora isso fizesse parte dos riscos a ponderar, a aconte­cer ao fim da tarde, as conse­quências podi­am ser catas­tróficas. É que, depois do anoitecer, não pode haver apoio aéreo de ataque ao solo nem para evacua­ções sanitárias.
            Umas horas antes da partida da coluna, ater­rou na pista um avião ligeiro que trazia o co­mandante da arti­lharia, um homem bai­xinho, de cabelo muito curto, bem parecido e sorri­dente. Sempre de piada pronta e muito de falinhas mansas, tratando to­dos por «filho». Os soldados al­cu­nha­ram-no de «assassino da voz meiga», porque, ape­sar do trato afável e pa­ternal, era de mão pronta e pe­sada. Foi de imediato encontrar-se com o coman­dante da opera­ção.
            — Então filho, alguma novidade?
            Visivelmente preocupado com a situação e ci­ente da sua responsabilidade, o oficial tentou ex­plicar o enorme erro que se ia cometer. De mão beijada, ia dar-se aos turras uma oportunidade única de nos darem uma tareia enorme...
            — Ó homem, não se preocupe. As coisas têm que ser mesmo assim. O «velho»[1] quer que se faça tiro de noite. As povoações do lado de lá da fron­teira cola­boram com os turras e têm que «apa­nhar na touca» quando menos esperam.
            — Quando menos esperam? Durante estes dois dias, já toda a gente deu com a língua nos dentes. Vamos mas é deitar fora umas centenas de granadas de artilharia. Isto, se não houver azar. Se me dá licença, tenho que me ir embora, senão so­mos apanhados pela noite ainda no caminho. A pi­cada está péssima com estas chuvas.
            — Onde é que vai com tanta pressa? Deixe-se cá ficar, homem de Deus. Que diabo vai você fazer com a tropa para o mato? A rapaziada nova que re­solva o caso. Ó filho, vai ver que não aconte­ce nada!
            Mas o comandante da operação é que não esteve pelos ajustes. Expli­cou-se até onde pôde, insistiu, teimou... e de­pois seguiu acabrunhado para a coluna prestes a par­tir. Saiu às três da tarde, con­forme as ordens que tinha.
            À frente, marchava a guarda avançada for­mada por uns carros blinda­dos que sobraram da se­gunda guerra. Me­tralha­doras aperradas. Sor­risos amarelos, caras en­fia­das...
            Iniciou-se então um percurso penoso através de trilhos lamacentos, abertos pelos rodados de viaturas que ali tinham passado antes. O ambi­ente era pesado. Todos sentiam que a «coisa» andava no ar. Ia haver sarilho com certeza. Iam «embrulhar», como se dizia na Guiné.
            O sol ia bai­xando até à linha do hori­zonte, enquanto as viaturas, em primei­ra veloci­dade, ar­rastando os pesados ca­nhões, avan­çavam devagar, demasiado devagar. Soldados apeados mar­cha­vam aos lados e à frente a fazer protecção.
            Estava-se quase a chegar. Eram só mais uns dois quilómetros. De­pois de instalados no local previsto para o estaciona­mento, será mais seguro. Tinha-se a vantagem de o terreno ser esco­lhido por nós, o que não aconteceria numa embos­cada. Oxalá haja luz suficiente para prepa­rar a po­sição. Se ca­lhar nem vai haver azar...
            De repente, ouve-se um rebentamento. Tiro­teio de todos os lados. O pessoal da frente estava cercado. A surpresa foi completa. A primeira viatu­ra, um dos tais blindados, caiu com as rodas da frente num enorme buraco ficando imobilizada e em má posição para fazer tiro. Mais rebentamentos. À medida que escurecia, distin­guiam-se os clarões produ­zidos pelos disparos das armas inimigas. Como de cos­tume nestas ocasiões, as metralhado­ras pesadas, de velhas que eram, encravavam a cada passo. Corridas desesperadas para os locais que pudes­sem dar o mínimo abrigo. Ordens grita­das que não che­gavam aos destinos. Rebentamen­tos e mais reben­tamen­tos. Um unimog desocupado apanhou com uma granada e ficou quase desfeito, em chamas. Os carregadores eram despejados de rajada e as muni­ções esgotavam-se. Um inferno.
            Já estava escuro quando o ti­ro­teio começou a diminuir. Só se ouviam alguns tiros do nosso lado. Depois, silêncio e medo.
            Reorganizar uma tropa, de noite, depois de um ataque em terreno desconhecido, não é obra fácil. Não se sabe ao certo quem é quem. Não se sabe se o inimigo retirou completamente, não se sabe uma data de coisas.
            Ouvia-se o gemer dos feri­dos. Parece que são poucos e sem grande gravi­dade, vá lá! Começaram a surgir boa­tos:
            — Faltam cinco homens...
            — Não sejas parvo, que não vai faltar nin­guém.
            — Parece-me que falta pelo menos um...
            — Amanhã vê-se, tem calma! Não me cha­tei­es!
            Durante a noite, quase às apalpade­las, a arti­lharia executou as missões de tiro pre­vistas. As ponta­rias eram feitas com os elementos de que se dispu­nha na altura mas, sem observação aérea, os efeitos nos objectivos eram duvidosos. Ordens são or­dens!
            Mais boatos:
            — Vi um tipo a ser levado pelos turras...
            — Não pode ser! Estás a ficar «apanhado do clima»!
            Ao amanhecer, conta-se o pessoal. Faltam qua­tro soldados. Faz-se uma batida na zona. Se­guem-se as pegadas dos turras. A poucos quilómetros, três cadáveres esquartejados. Passados dias, um soldado fala na rádio Konakry. Contra Portugal...
 
 Adaptado do livro de contos "Travessia" de Costa Monteiro


[1] General Spínola
publicado por Fernando Vouga às 16:21

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