Sexta-feira, 28 de Julho de 2006

Memórias de Salgueiro Maia

 

          Nada melhor para quem estiver interessado em histórias da guerra do Ultramar do que ler o “Capitão de Abril” de Salgueiro Maia.
          Escrito de uma forma viva, muito pessoal e agradável onde não falta a clareza e uma pitada de humor, este livro transporta-nos aos tempos das campanhas africanas, à revolução de Abril e aos tempos difíceis que se lhe seguiram.
          Mas o melhor é deixar falar o seu autor, pelo que passo a transcrever alguns excertos que considerei mais interessantes:
 
Sobre a Guiné (Guidage, Maio de 1973):
 
          «O IN passou a utilizar mísseis terra-ar, do que resultou serem abatidos um avião DO27 que acabava de evacuar feridos da pista de Guidage, um avião T6 de uma patrulha de dois que foram ver o que tinha acontecido ao DO27 e um avião Fiat G91. Dos aviões abatidos resultou a morte de todos os ocupantes do avião DO e de um dos outros pilotos, pois um deles pôde ser recuperado depois de se atirar de pára-quedas. (pag. 63)
[...]
 
          Pelas 19 horas, esgotados, chegámos a Guidage, que ao anoitecer tinha um aspecto irreal. O chão estava lavrado por granadas, as casas, todas atingidas, pareciam ruínas, os homens viviam em buracos, luz e água não havia. (pag. 69)
[...]
 
          Nas minhas visitas pelos escombros, desci ao abrigo da artilharia, onde houvera quatro mortos e três feridos graves. O abrigo fora atingido em cheio por uma granada de morteiro 83 com retardamento; [...] o chão tinha um revestimento insólito — consistia numa poça de sangue seco, de cor castanha, com 2mm a 3mm de espessura, rachada como barro ressequido. (pag. 71)
 
Sobre Moçambique.
 
          A alimentação consistia em dobrada liofilizada que, ao ser recuperada em água, deitava um cheiro nauseabundo, capaz de tirar o apetite mesmo ao mais esfomeado; bacalhau, conservado na maior parte das vezes em latas de cal, tipo caixão; atum e salsichas, para acompanhar com arroz e massa; a batata e os vegetais era raro aparecerem; carne, só de caça, pois a congelada também não aparecia... (pag. 79)
 
Sobre o dia 25 de Abril de 1974
 
          A marcha para o Carmo foi extraordinária pelo apoio popular que agregou, o que contribuiu bastante para que o Carmo perdesse a vontade de resistir. (pag. 94)
[...]
... dizendo serem eles os mensageiros do general Spínola.
          Deixo-os entrar no Quartel mas depois começo a desconfiar nos mensageiros, pois deveria ser o general Costa Gomes a comparecer, visto ter sido para isso o mais votado pela Coordenadora. (pag. 95/96)
[...]
          O general Spínola chegou com Dias de Lima, não respondeu sequer ao meu cumprimento militar e assumiu um ar de quem tinha ali sido chamado para resolver uma situação crítica com a qual nada tinha a ver. (pag.97)
[...]
          Foi falar a sós com Marcelo e veio de lá com ar de dono da Guerra! (pag. 97)
[...]
          É na sequência disto que não compareço na tomada de posse de Spínola... (pag.98)»
 
 
 
publicado por Fernando Vouga às 23:43

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Quarta-feira, 19 de Julho de 2006

O primeiro ataque a Bafatá

 

          Cerca das 23H20 do dia 26 de Junho de 1971, um grupo inimigo atacou BAFATÁ durante cerca de 5 a 10 minutos. Parte do seu efectivo visou directamente o aquartelamento do ERec. 2640. As nossas tropas reagiram pelo fogo e pela manobra. Não houve consequências para as mesmas. No entanto, a população civil sofreu 4 feridos ligeiros e foram queimadas 11 habitações (palhotas) de um bairro da periferia.
 
“História do Esquadrão de Reconhecimento 2640”, Cap. II, Pag. 52
(com algumas correcções meramente editoriais)
 
 
          O General Spínola desceu do helicóptero com cara de poucos amigos. Ao contrário do costume, não envergava o camuflado. Apresentou-se de farda verde, de gravata e com o blusão de lã vestido, embora o calor de Junho fosse sufocante. Na cabeça, a boina preta, monóculo no olho direito e uma varinha na mão. Depois de um cumprimento de circunstância aos oficiais que o aguardavam na placa da pista de aviação, dirigiu-se de imediato para a sala de reuniões.
          Militarmente pouco relevante, este ataque revestiu-se de uma grande importância psicológica e política. Era o primeiro ataque ao âmago do “Chão” Fula, e punha a nu a fragilidade da sua segurança, resultante do abandono da região do Boé, a Sul do rio Corubal. Abandono este decidido pelo próprio Spínola e que foi alvo de críticas, tanto de políticos como de militares.
          Assim, o general, que sempre revelara uma certa dificuldade em reconhecer os seus erros, não se demorou em encetar um ataque cerrado ao comandante da defesa de Bafatá, um tenente-coronel que comandava o Batalhão local. O ambiente era pesado e irrespirável, as portas e janelas foram fechadas e todos, menos Spínola, que continuava agasalhado, transpiravam copiosamente. De palavra pronta e acutilante, desferia golpes sobre golpes no pobre homem. A intenção era clara: descobrir uma falha que lhe permitisse transferir as culpas para o seu subordinado.
          Mas não foi fácil. O tenente-coronel, sem o fazer com frontalidade, procurava insinuar que não tinha flexibilidade para alterar o dispositivo de defesa, imposto pelos escalões superiores. Que, nesses termos, era impossível suster as infiltrações dos guerrilheiros. Ou seja, que a responsabilidade do desaire caberia, em última análise, ao próprio Spínola.
          Mas este retorquiu que era altura para decisões rápidas. Que a obrigação do comandante da defesa era fazer as alterações que achasse necessárias, sem delongas, e que pedisse autorização depois. Abro aqui um parêntesis para esclarecer que, com Spínola, era impensável tomar tais iniciativas porque, em caso de fracasso as consequências seriam devastadoras para o futuro da carreira. E, a finalizar a sua argumentação, o general acrescentou: «O senhor, em vez de dominar a situação, está a ser dominado por ela. Temos que ser inteligentes!»
          E foi aí que o tenente-coronel, já em pânico, cometeu um erro fatal. Tentando desesperadamente demonstrar que não lhe faltaria inteligência, respondeu: «Eu fui professor de Geometria Descritiva na Academia Militar.»
          A resposta fulminante e demolidora de Spínola não se fez esperar: «Vê-se bem que não foi professor de discernimento nem de bom senso.»
          E, com esta tirada, o Governador da Guiné saiu vitorioso. Acabara de conseguir mais um bode expiatório para imolar no altar das suas glórias…
publicado por Fernando Vouga às 17:52

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Quinta-feira, 13 de Julho de 2006

Memórias do Regimento de Cavalaria 8

        Uns meses antes de o Esquadrão 2640 ser formado, corria o ano de 1969, fui destacado para a sua unidade mobilizadora, o Regimento de Cavalaria nº 8, sedeado em Castelo Branco. Tudo para encabeçar a instrução de cerca de centena e meia de recrutas.
        Rapazes ordeiros e pacatos, das mais diversas proveniências. Mas, como era natural para quem não sonhava com a carreira das armas, estavam mais motivados pelo fim-de-semana do que pelas matérias ministradas. Assim, à quinta-feira, os comandantes de pelotão, no seu mais puro e generoso porreirismo, assediavam o meu gabinete para ver se conseguiam que alguns dos seus instruendos fossem para casa um dia mais cedo, ou regressassem um dia mais tarde. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. As razões eram as mais diversas e, a dar-lhe ouvidos, a tendência seria para que não aparecesse ninguém durante a semana…
        É fácil de prever que, ao tal porreirismo, se impunha da minha parte uma tendência para a dureza de ouvido. Calejado por vários anos a comer desse menu, já não me comovia facilmente com as desgraças e premências que anunciavam. O que não quer dizer que não considerasse alguns casos em que a argumentação fosse convincente e razoável.
        Um belo dia, apareceu-me no gabinete um dos tais comandantes de pelotão, acompanhado por um dos seus recrutas, para que ele expusesse pessoalmente o seu caso, a fim de conseguir uns dias de dispensa. Deixei-o falar, mas o pedido não tinha qualquer fundamento. Perante a insistência, tentei, através de um exemplo, explicar-lhe o que era um caso de força-maior que justificasse a sua ausência da instrução. Assim, contei-lhe um caso verídico de um soldado que teve que ajudar o pai a abrir um poço numa altura de seca, para não perder as colheitas.
        Mas o recruta não se deu por vencido. Na semana seguinte entregou, por escrito, um pedido de dispensa por causa do pai que tinha que abrir um poço. Achei piada ao descaramento, mas não me deixei comover. Porque, se o fizesse, seria um desastre. A acreditar nesses pedidos, haveria por esses campos fora mais de uma centena de pais de recrutas a abrir poços por todo o lado, para fazer face à seca. Mesmo em tempo de chuva, como era o caso.
publicado por Fernando Vouga às 23:01

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