Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

No tempo da "Outra Senhora"

O GENERAL FONSECA [1]
 
 
          O alferes estava intrigado. Àquela hora, quase meia-noite, não era de esperar que um general fardado de cinzento — uniforme destinado a actos oficiais de relevo — estivesse na estação de caminhos-de-ferro de Algés à espera do comboio. Todos têm viatura distribuída, com respectivo condutor, e não costumam andar uniformizados fora dos quartéis. Respeitosamente, fez-lhe a continência devida e, depois de esclarecer que comandava a patrulha da Polícia Militar ali presente, perguntou:
          — O meu general precisa de transporte para algum lado? Se quiser, posso falar pelo rádio da minha viatura e pedir transporte para o levar a casa.
          — Muito obrigado, nosso alferes — respondeu com toda a naturalidade —, mas até me sabe bem andar de comboio.
          Mas o oficial da Polícia Militar não se convenceu. Ali havia mistério. Para mais, em tempos da guerra colonial, tudo o quer saísse das normas era considerado suspeito. Algo lhe dizia que o homem que tinha pela frente, não podia ser general. Havia ali muita coisa que não batia certo. Quem sabe se andava assim fardado para cometer algum acto impróprio ou subversivo para assim denegrir a imagem das Forças Armadas?
          — Desculpe meu general, mas não se importa de me acompanhar até à minha viatura?
          — Mas qual é o problema?
          — Nada de especial, mas tenho que saber com quem estou a falar. Gostaria de verificar a sua identificação. São ordens…
 
          O Fonseca, assim se chamava o nosso herói, era decerto um homem prático. Não tendo posses nem disposição para encetar uma carreira de oficial do Exército, resolveu iniciá-la pelo fim ou seja, já como general. Para isso, amealhou umas quantas notas de conto, tantas quanto as necessárias para comprar uma farda de general, informou-se devidamente de todos os pormenores do plano de uniformes e, vai daí, deu entrada numa alfaiataria especializada, junto ao Teatro D. Maria em Lisboa.
          Mas o alfaiate desconfiou. A roupa que trazia, os sapatos cambados, a barba pouco cuidada e o cabelo em desalinho indicavam que o cliente não seria propriamente pessoa para ter dinheiro para pagar o uniforme. Desculpando-se pela indelicadeza, exigiu o pagamento adiantado. Perante o seu espanto, o Fonseca tirou do bolso as notas necessárias e pagou tudo de uma assentada: sapatos, camisa, luvas, gravata e tudo.
          Ainda pouco convencido, o alfaiate quis saber o posto. Apenas para saber que divisas ou galões era necessário encomendar. Mas ficou siderado quando ouviu a resposta: general. Nem mais nem menos! Desfez-se em desculpas, tentou devolver o dinheiro. Felizmente que o cliente não se agastou. Sem perder a calma, disse compreender e combinou as provas, bem como o dia da entrega.
          As provas correram bem e, enquanto o alfaiate descosia e cosia partes do dólman, o falso general deu mostras do seu saber em tudo o que se relacionava com uniformes militares.
          No dia aprazado, o Fonseca apresentou-se no alfaiate para receber a farda. Alegando pressa, dizia ter uma reunião urgente no Estado-Maior, pediu para mudar de roupa na alfaiataria e que, dentro em breve, o condutor iria buscar a roupa civil. Saiu porta fora e nunca mais foi visto na alfaiataria.
 
           Após a sua detenção em Algés, o pretenso general ficou detido no Regimento de Lanceiros, sede da Polícia Militar. Enquanto aguardava a vinda de uma viatura da PSP para o levar para a esquadra, recebeu a visita do comandante, que se deslocou propositadamente ao quartel para tentar perceber que se estava a passar, já que o caso era mais que insólito. Em conversa amena, o Fonseca explicou então que, durante os vários dias em que “esteve na tropa”, ficara com muito boa impressão das Forças armadas. Que todos os militares com quem se cruzara lhe fizeram a continência com toda a correcção. Mas que apenas um “senhor capitão” tinha baixado os olhos para não lhe prestar as honras a que tinha direito. O que, diga-se em abono da verdade, fazia todo o sentido. O golpe do 25 de Abril já estava em marcha e, nessa altura, a confiança que esses jovens oficiais tinham nas mais altas patentes militares estava muito abalada…


[1] No essencial, a história é verdadeira
publicado por Fernando Vouga às 23:30

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