Segunda-feira, 16 de Outubro de 2006

Feijão macaco

 

 

          Em todas as guerras, uma grande percentagem das baixas não são devidas ao combate. Devem-se a carências de toda a ordem, das quais se podem salientar as dificuldades de alojamento e alimentação, o afastamento da família, doenças, acidentes de viação e por aí fora.
          Mas África, continente fascinante, misterioso e por vezes cruel, apresentava, durante a guerra colonial, alguns perigos específicos a considerar. E, ao contrário do que muitos poderão esperar, não eram os leões, os leopardos, os rinocerontes as cobras e os crocodilos o que mais afectavam os nossos soldados. Raramente eram avistados. Eram de outra natureza, menos impressionante, mas muito mais insidiosa e traiçoeira. Refiro-me aos mosquitos, abelhas e formigas.
          Os mosquitos, porque para lá das incómodas comichões que provocam, eram portadores da malária. Os casos dessa doença, por vezes fatal, ocorriam com uma certa frequência, apesar de todos os militares serem obrigados a tomar os medicamentos preventivos.
          As abelhas, quando “incomodadas” nos seus ninhos com a passagem dos soldados, atacavam sem piedade tudo o que se mexia nas proximidades. Nas operações, um desses ataques provocava a maior das confusões e a consequente quebra do silêncio e disciplina, tão necessários em situações de perigo. De tal forma, que os guerrilheiros costumavam colocar minas anticarro junto aos enxames. E, quando a mina era accionada por uma viatura, os resultados eram avassaladores. Os soldados ficavam com toda a pele exposta literalmente alcatifada por uma camada desses perigosos insectos. E. no caso dos feridos, o espectáculo tornava-se verdadeiramente dantesco.
          As formigas, enormes e agressivas, mordiam sem piedade todos os incautos que tivessem o azar de se meter no seu caminho. Quantas vezes, à noite, quando no mato se procurava um local para descansar ou para montar uma emboscada, toda a operação ficava comprometida porque os soldados desatavam aos pulos com as mordidelas das inúmeras formigas que entravam para dentro dos camuflados. Quase sempre, a única solução era sair do local, despir a roupa toda e sacudi-la (o que, por sua vez, abria uma possibilidade de ouro para os mosquitos nos picarem nas zonas mais despropositadas…).
          Porém, havia ainda outro factor, raramente mencionado, que, não sendo grave nem provocador de doenças, causava imensos incómodos durante as operações. Estou a falar de um feijão selvagem de cor preta que, especialmente no norte de Moçambique, crescia a bom crescer nas terras abandonadas pelas populações locais por causa da guerra.
          Na época seca, as vagens retorcidas desse feijão, libertavam umas palhetas microscópicas que se espalhavam no ar que, ao atingirem a pele, provocavam uma comichão incontrolável. Se lhes tocávamos com as mãos, as ditas palhetas ficavam espetadas com tal densidade que formavam uma espécie de veludo, dificílimo de tirar.
As próprias populações nativas, quando no final da época seca limpavam o mato dos terrenos destinados à agricultura, trabalhavam quase despidos, e com a pele pintada com uma espécie de pomada feita à base de cinza embebida em água.
          E o pior é que nem a lavagem dos camuflados eliminava de todo a praga. E assim, mal se vestia, começava logo a comichão. E não será por acaso que esse feijão era conhecido em Angola por “feijão maluco” e em Moçambique por “feijão macaco”.
publicado por Fernando Vouga às 23:53

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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2006

No tempo da "Outra Senhora"

 

CONVERSAR COM SARDINHAS [1]
 
          Foi em Mafra, durante o almoço — na tropa chamam-lhe segunda refeição — que o oficial de dia notou que um soldado cadete do curso de oficiais milicianos estava a ter um comportamento estranho. Não comia e, aparentemente, estava a falar com as sardinhas que tinha no prato. Sardinhas estas que, diga-se em abono da verdade, não primavam pela frescura.
          Ao tempo, e já lá vão mais de quarenta anos, qualquer comportamento anormal nos refeitórios militares era quase sempre tido como suspeito. O que se justificava, pelo facto de o regulamento de disciplina militar em vigor na época ser muito rigoroso ao ponto de obrigar à aceitação, sem hesitações, de toda a alimentação que fosse distribuída. E o caso não era para menos, já que, como se sabe, a comida fornecida andava um tanto longe daquela que se pode ter no Tavares ou no Gambrinus, passe a publicidade. E qualquer tentativa de reclamação era reprimida sem hesitações.
          — Ó nosso cadete, está a falar com as sardinhas?
          O instruendo levantou-se, pôs-se em sentido e respondeu:
          — Estava sim senhor… É que, há dez anos, um irmão meu caiu ao mar e nunca mais foi encontrado. Estava a perguntar-lhes se, por acaso, o teriam visto.
          — E o que é que elas lhe disseram?
          — Que há dez anos já tinham sido pescadas!
 


[1] Esta história foi-me contada por um amigo, mas parece-me boa de mais para ser verdadeira…
publicado por Fernando Vouga às 18:56

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