Domingo, 26 de Novembro de 2006

Amor de tia

 

          Dias antes de embarcar para Moçambique, a minha primeira comissão no Ultramar, aproveitando a curta licença que nos era concedida nessas alturas, fui a Lamego despedir-me da família. E uma das visitas obrigatórias nas deslocações à minha terra natal era a minha tia Amélia. Senhora viúva, já perto da casa dos setenta anos, mas que se via que tinha sido uma bonita mulher na sua juventude. Perguntou-me o que ia fazer e qual o meu destino.
          — Vou comandar uma companhia de atiradores. Tanto quanto se sabe, vamos para a região de Mueda, no norte da Província.
          — E esse lugar é bom?
         — Nem por isso, tia. Até agora tem sido considerado um dos mais perigosos de Moçambique…
          Ela ficou por momentos pensativa. Mas depois, de dedo espetado e com um ar de quem dá ordens, disse-me:
          — Olha, quando os terroristas começarem aos tiros, deixa os outros e mete-te atrás de uma árvore até tudo acabar. Não sejas burro…
publicado por Fernando Vouga às 00:16

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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006

Em que ficamos?

 

          Neste momento, os militares estão, para efeitos de direitos, equiparados ao funcionalismo público. É justo? É injusto? Só a História o dirá mais tarde.
          Porém, quanto a deveres, o caso muda de figura, como é do conhecimento geral. E é em nome desses deveres que o poder político, com o apoio aparentemente incondicional da hierarquia militar, quer impedir que cidadãos militares se passeiem na baixa lisboeta, como forma ordeira de fazer sentir o seu descontentamento. Certo? Errado? Só a história o dirá também.
          O que está profundamente errado e injusto é colocar os militares entre dois fogos. Por um lado, o Governo da Nação equipara-os a funcionários públicos; por outro, a hierarquia castrense impede-os de o serem.
          Em que ficamos?
 

publicado por Fernando Vouga às 13:57

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Terça-feira, 14 de Novembro de 2006

Um livro a não perder

 

          Se é certo que a Força Aérea, por si só, não ganha a guerra, também é certo que, sem ela, a vitória não é possível nos dias de hoje. E é essa a conclusão que se pode tirar do livro de Luís Alves de Fraga, nosso companheiro da blogosfera (Fio de Prumohttp://luisalvesdefraga.blogs.sapo.pt/) intitulado “A Força Aérea na Guerra em África – Angola Guiné e Moçambique”.
          Fiz a guerra nesses três teatros de operações e não me esqueço, como combatente das forças terrestres, de quão útil nos foi a cooperação dos meios aéreos. Não havia comparação possível percorrer com uma coluna de viaturas uma picada no planalto de Mueda com protecção de uma parelha de caças T6-Harvard e fazê-lo sem esses autênticos anjos da guarda. Por outro lado, isolados em quartéis improvisados no meio do mato, o “Dornier” ou o “Auster” eram os únicos elementos que nos ligavam ao resto do mundo quando, aterrando em perigosas pistas de terra batida, nos trazia o correio e alguns frescos. Isto só para dar alguns exemplos.
          Escrito de uma forma muito clara, sintético mas profundo e ilustrado com inúmeras fotografias, este livro dá-nos uma perspectiva muito esclarecedora do que foi a guerra colonial.
          Leitura indispensável para quem queira conhecer o que na realidade se passou nesse período difícil da nossa História recente.
publicado por Fernando Vouga às 21:46

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Segunda-feira, 6 de Novembro de 2006

Cautela e caldos de galinha...

 

          Em 1971, no intervalo entre duas comissões em África, encontrava-me colocado em Santarém na escola Prática de Cavalaria. Se a memória não me falha, foi por essa altura que, por falta de pessoal, se admitiram no Exército as primeiras mulheres como escriturárias civis. Do antecedente, os únicos funcionários do sexo feminino eram mulheres da limpeza, pessoal diligente e discreto que quase não se notava.
          Um belo dia, encontrava-me no pátio contíguo à secção financeira a conversar com um sargento de provecta idade, dos velhos tempos da Cavalaria a cavalo. Choupana era o seu nome. Homem magro, de aspecto austero e cara chupada, era muito competente e prestável. Por isso, muito considerado por todos desde o Comandante ao mais jovem soldado. Desempenhava com um zelo inexcedível as funções de bibliotecário. Quem requisitasse um livro, uma folha de carta, uma revista, tinha logo o Choupana à perna mal passasse o prazo de entrega. Tratava e arrumava nas prateleiras os livros com um desvelo de enfermeira dedicada e passava horas a fio a reparar as cartas topográficas sempre que, pelos maus tratos sofridos em exercícios no campo, aparecessem rasgadas.
          Enquanto decorria a nossa amena conversa, passou à nossa frente uma jovem dactilógrafa recentemente admitida ao serviço. Sem ser particularmente bela, não deixava de ser vistosa, quanto mais não seja por ser a única mulher naquelas paragens. Os meus olhos seguiram o seu caminhar ligeiro e gracioso. Pormenor que, decerto, foi notado pelo meu interlocutor. Com um sorriso matreiro, perguntou-me:
          — Antigamente na tropa só havia cavalos. Depois, por não os haver em quantidade suficiente, fomos obrigados a comprar éguas. Só que, nas cavalariças, nunca mais houve sossego… Os pobres animais, para se encontrarem, chegavam a partir as correntes… Era uma confusão enorme. Por fim, foi necessário castrar os cavalos. Agora, que temos mulheres nos quartéis, será que nos vai acontecer alguma coisa?
publicado por Fernando Vouga às 22:04

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Quinta-feira, 2 de Novembro de 2006

Para Angola, mas com pouca força...

Zemba, Região dos Dembos - Angola

Pormenor do quartel do Batalhão

 

          Já lá vão mais de trinta anos sobre o termo da Guerra colonial. A História ainda está por fazer e, se não houver contributos daqueles que a viveram, corre-se o risco de, no futuro, prevalecer uma imagem distorcida dos acontecimentos. Sobretudo, há que fazer justiça e evitar a todo o custo que as Forças Armadas (FA) sejam transformadas em bode expiatório para os erros da política.
          Às FA, constituídas maioritariamente por conscritos, foi pedido um sacrifício incomensurável. Fizeram a guerra durante treze anos em condições impensáveis para os dias de hoje. Mal armadas, mal instruídas, mal alimentadas, mal compreendidas, deram o seu melhor, apesar de tudo.
          O texto que se segue serve para ilustrar uma das muitas dificuldades que afligiam os comandos que tiveram a responsabilidade de conduzir as operações no terreno.
 
          Quando, em 1973 fui mobilizado para Angola integrado num batalhão de atiradores, as dificuldades de recrutamento eram já enormes. Por razões de vária ordem, agravadas por uma grande percentagem de deserções e fugas ao serviço militar, o mínimo que se poderia dizer na altura é que já não havia pessoal que chegasse. Os comandantes das Companhias (unidades operacionais com cerca de 150 militares) eram milicianos, a cumprir pela segunda vez o serviço militar obrigatório; aos oficiais e sargentos milicianos, cada vez, eram-lhes exigidas menos habilitações literárias. Quanto aos soldados atiradores, nem se fala. Os mais aptos de cada incorporação eram açambarcados pelos pára-quedistas, comandos, fuzileiros e outras tropas especiais. O que nos restava era, em boa verdade, o que já não servia para mais nada. Bons rapazinhos, mas sem grande aptidão para o combate.
          E, como se tal não fosse já um quebra-cabeças impossível de resolver — toda a força combativa de uma unidade operacional residia na qualidade dos atiradores —, apenas recebemos metade dos que nos cabiam no quadro orgânico. Os restantes 114 atiradores foram-nos entregues em Luanda. Todos africanos de origem, provenientes do recrutamento local.
          Honra seja feita a esses jovens angolanos que, embora não se revelassem muito aguerridos em operações, portaram-se de forma exemplar no que toca a camaradagem, disciplina e comportamento. Dormiam nas mesmas casernas que os oriundos da Metrópole, comiam mesma comida, eram ordeiros e asseados.
          A grande diferença entre os atiradores europeus e africanos não estava na cor da pele ou na cultura. Estava na escolaridade. Enquanto a esmagadora maioria dos europeus era analfabeta, todos os africanos tinham a instrução primária completa.
          E eu próprio assisti, caso insólito, a soldados angolanos lerem ou escreverem cartas aos seus camaradas europeus…
 
publicado por Fernando Vouga às 22:23

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