Sábado, 13 de Janeiro de 2007

Um conto a propósito

          No artigo anterior fiz uma breve referência introdutória ao ambiente que se vivia em Luanda nos anos 74/75. E é a propósito desse ambiente que se transcreve um conto do livro "Travessia" de Costa Monteiro.
 
 
O Crime da Discoteca
 
 
            Luanda, com a queda do ancien régime, tor­nou-se uma cidade onde o impossível passou a acontecer. As expectativas criadas com a indepen­dência, que se adivinhava inevitável, desenvolve­ram um compre­ensível clima de agitação em todos os que habita­vam esta bela cidade. A situação ia-se deteriorando à medida que uns, ansiando pela mu­dança não queriam esperar mais, enquanto outros, te­mendo-a, tentavam travar a todo o custo um pro­cesso que se afigurava imparável. Dum lado e ou­tro, os oportunistas, que crescem como cogu­melos nestas ocasiões, faziam as suas jogadas sujas de forma a marcarem lugar em todos os comboios que aparecessem, viessem eles da esquerda, da di­reita ou do centro.
            Em Luanda, passou a jogar-se o futuro da hegemonia em África. Uma vez que fosse afastada a interfe­rência da última potência colonial, o terri­tório iria ficar, finalmente, à mercê dos altruísmos internaci­onais. Havia que libertar estes povos do jugo ex­plo­rador do colonialismo. As potências ­can­didatas a sal­vadoras do povo oprimido e explo­rado preparavam-se para implantar os seus mode­los de li­berdade, nem que fosse a tiro. Nos bastidores da política, puxavam-se os cordelinhos às marionetas do poder, “bato­tando-se” quanto se podia.
            As consequências de tal estado de coisas eram as mais imprevisíveis. Manifestações, greves, agitação social, tiroteios, atentados, destruições, fogos postos, assaltos, vigarices. O mais pequeno incidente, o mais pequeno equívoco, podiam ser aproveitados para criar situa­ções complicadas, e assim evitar qualquer espécie de controlo pelas autoridades, ainda responsáveis pela administração do território.
            Como sempre nestes casos, quem acaba por se «lixar», é o mexilhão. Sofriam e mor­riam bran­cos e negros, à medida que o poder caía na rua. Frustra­vam-se todas as expectativas. Da parte dos brancos, era o salve-se quem puder. Da parte dos pretos, era o palme-se o que se puder. Dizia-se que se uns eram do «MPLA», os outros eram do «UM PÉ LÁ». Na metrópole, claro. O «feijão branco»[1], a liamba, o mercado negro de capitais, etc., tomaram foros de legalidade e tran­saccionava-se às claras. O dito mexilhão, quanto mais mexi­lhão fosse, mais era apanhado no fogo cruzado dos interesses en­volvi­dos. Luanda era uma cidade mar­tirizada por exces­so de salvadores.
            Qualquer tentativa de manter um mínimo de ordem era sabotada por uma avalanche de aconte­cimentos que ultrapassavam qualquer ca­pacidade de resposta. Era um dirigente político que chegava, era outro que partia. Multidões acorriam ao aero­porto para aclamar os seus dirigentes. Um in­cêndio aqui, um roubo acolá, um atentado ou uma mortei­rada mais além. Tudo numa cadência incon­trolável.
            Hoje, é um Jumbo da TAP que é quase atingido por uma granada de lança foguetes, mo­mentos antes da descolagem. Amanhã é estrada de Catete que é cortada porque apareceu um cadáver. Não se sabe como foi, mas o motivo é óbvio. Vin­gança de branco. Centenas de carros e camionetas esperam horas até que se resolva a maca. À saída do cinema da noite, esfaqueiam-se em plena rua dois pára-quedistas. À reacção violenta dos seus camaradas, responde-se com casas e viaturas a ar­der e estradas cortadas. Todo o mundo e nin­guém estão cheios de razão. Só que a razão não tem ar­gumentos para calar seja quem for. Acalmar os ânimos, só com mais tiros, só com mais medo, só com mais terror. Espiral de vio­lência.
            De um simples «indício», fazia-se um caso de polícia. A partir de um lenço ensanguentado, por exemplo, inventava-se uma trama detectivesca que acabava quase sempre no assassínio de um preto por um branco. Tudo como nos filmes policiais. Só que, ao contrário do que acontecia nesses filmes, onde a menor pista levava infalivelmente ao crimi­noso, a polícia «dos brancos» nunca desvendava nada. Apenas porque não queria, dizia-se à boca cheia. Havia até testemunhas, embora desapareci­das, que viram sair duma sarjeta os pés de um preto. O morto não estava, as testemunhas também não, mas não valia de nada. A prova estava ali bem à vista, no tal lenço manchado de vermelho, e a polícia continuava a não fazer nada. Os pretensos suspeitos eram quase sempre bran­cos, dos mais po­bres, que viviam nos musseques ou perto deles, e tentavam pôr a salvo os seus bens, antes de aban­donar a casa onde deixaram de se sentir seguros. Se fugiam, diziam, era porque eram culpados. Recla­mava-se justiça exemplar, já que as provas eram mais que irrefutá­veis...
            Mas a esperança é a última coisa a morrer. No meio disto tudo, paradoxalmente, fazia-se uma vida quase normal. Aos domingos, na época quen­te, a praias da Ilha continuavam a en­cher-se. Os restaurantes serviam arroz de marisco (com ele), as moambadas, as churrascadas e as do­ses de garou­pas grelhadas, de se tirar o chapéu. Na estrada para o Cacuaco, o famoso bacalhau à Vi­le­la. Na Mu­lemba, os petiscos do Pereirinha. Na marginal, as meninas da faculdade, de calção curti­nho e cabelos ao vento, transportavam, velozes, os namorados nas suas mini-hondas. À noite, os ma­g­níficos cinemas ao ar livre enchiam-se, apesar dos perigos do regresso a casa. Os pneus podiam estar fura­dos ou a rua cortada, mas risco passou a fazer parte do quotidiano. Pes­cava-se no Mussulo, acelerava-se no autó­dromo, dava-se um passeio de carro até ao Fetungo de Be­las ou até à praia do Cacuaco para comer uns ca­ranguejos pi­cantes. Pela noite dentro, os bares e dis­cotecas continuavam a ser ponto de encontro de gentes de todas as idades, sexos, credos e raças.
            E foi em frente a uma discoteca que aconte­ceu um dos casos mais difíceis de resolver que, por pouco, não gerou um banho de sangue. Tudo come­çou numa bela madrugada quando alguém desco­briu manchas de sangue no passeio. O caso era, como sempre, claro. Um branco matou um preto, escondeu o corpo e fugiu. A história do costume. A evidência estava ali. Sangue no chão, mesmo em frente à porta da discoteca.
            A situação complicou-se porque os três movimentos de libertação já tinham delegações em Luanda. O «Sherlock Holmes» que descobriu o crime chamou as «autoridades» do movimento de que era simpatizante. Já não se baixou a chamar a polícia que, embora tivesse pretos nos seus efectivos, era «dos brancos» logo, incapaz de fazer justiça. Em es­cassos minutos, surgiu no local um grupo de sol­da­dos desse movimento, armados até aos dentes. Co­meçou por isolar a área, a fim de investigar o crime e proceder à captura do culpado. Entretanto, um simpatizante de outro movimento, que não quis ver os seus patrícios excluídos do caso, pediu a sua in­tervenção. Num ápice, chegou outro contingente, de armas aperradas. Como não podia deixar de ser, o movimento que faltava não se fez esperar.
            Todos se achavam a única autoridade com­petente e capaz de resolver o caso. Mais que um problema policial, a situação transformou-se numa disputa entre grupos rivais armados e prontos a disparar ao menor deslize.
            A interrupção do trânsito já durava há várias horas e o caso ia de mal a pior. Alertado o exército, acorreu ao local uma força armada que, sem saber ao certo o que se passava, se viu cercada de solda­dos que lhe apontavam armas prontas a disparar. Foi o primeiro momento em que os três movimen­tos se puseram de acordo. A multidão clamava por vingança:
            — Foram estes! São culpados. Senão, não ti­nham vindo para aqui! Assassinos! Assassinos!
            Culatras puxadas atrás, ligações rádio a pe­dir reforços, tentativas de resolver o caso a bem. Ouvem-se sereias ao longe, que se aproximam. A tensão sobe em flecha.
            De súbito, as atenções voltam-se para um branco, enorme, que tentava a todo o custo romper através do povo apinhado. Na testa, trazia marcas frescas de mercúrio, sinais de vários cortes e um grande penso colado com adesivos. Fez-se silêncio. Mo­mento de suspense, muito à moda dos fil­mes policiais.
            — O que é que se passa? — Perguntou o recém-chegado.
            — O que é que você quer? — Inquiriu um dos inúmeros «detectives».
            — Sou o porteiro desta discoteca, não posso passar, não?
            Não obteve resposta. Agora as armas esta­vam apontadas para ele. A medo, acrescentou:
            — O que é isso? Vamos lá a ter calma, que não fiz mal nenhum... Venho do hospital, onde fui receber tratamento. É que durante a noite, quando tentava pôr fora um cliente bêbedo, apanhei com uma garrafa na cabeça. Foi aqui mesmo, ainda se pode ver o sangue no chão!
 
 


[1] Diamantes.
publicado por Fernando Vouga às 12:31

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Sábado, 6 de Janeiro de 2007

O tiro de Luanda

 

          Luanda, nos finais de 1974 era uma cidade a ferro e fogo. Na sequência da Revolução de Abril, as autoridades Portuguesas autorizaram a instalação das delegações dos diferentes partidos independentistas. O MPLA, a FNLA e a UNITA., devidamente instalados com armas e bagagens, mas sobretudo com armas, lançaram-se numa luta desesperada pela conquista do poder. Quase de um dia para outro, uma cidade pacífica transformou-se num inferno.
          Em virtude de a situação estar à beira do descontrolo total, as autoridades portuguesas resolveram reforçar o dispositivo de ordem pública com umas quantas unidades operacionais vindas do interior e que ainda estivessem suficientemente disciplinadas. Foi o caso do meu Batalhão que, sem esperarmos, foi deslocado para a capital Angolana.
          Para uma tropa que durante um ano estivera isolada no mato em condições precárias, a ida para essa bela cidade cheirava já a fim de guerra. Com efeito, as ruas e amplas avenidas continuavam pejadas de carros, os cafés e restaurantes a abarrotar de clientes, os cinemas a funcionar em pleno. Mas cedo os soldados começaram a ter saudades do tempo em que combatiam os guerrilheiros nas montanhas e matas dos Dembos. Aí sabia-se onde se acoitava o inimigo, já de si tremendamente desgastado e quase inoperacional. As operações eram demoradas e cansativas, é certo, mas ao menos sabia-se com o que se contava. Em caso de dúvida, falavam as espingardas, as bazucas e os morteiros e o caso resolvia-se em pouco tempo.
          Em Luanda tudo era diferente. Os soldados, transformados à pressa em polícias, viram-se a fazer uma guerra estranha para a qual não foram minimamente preparados. Por detrás de um ambiente onde a vida parecia decorrer com normalidade, escondiam-se inúmeros perigos e situações bem difíceis de resolver. Com a agravante de as armas só poderem ser usadas com imensas cautelas, dado que poderiam atingir alvos errados e transformar pequenos incidentes em tragédias de dimensões imprevisíveis, com implicações ao nível internacional.
          Mas esses movimentos de guerrilha mostraram-se pouco preparados para manter a ordem. Talvez por terem sido apanhados de surpresa com a revolução portuguesa e o consequente fim da guerra. Demasiados individualistas e pouco disciplinados, cada um fazia a guerra por sua conta e a autoridade que exerciam sobre os seus combatentes deixava muito a desejar.
          Se no centro da cidade a vida decorria dentro de uma segurança aparente, nos arredores, onde viviam em imensos musseques largos milhares de angolanos negros, e onde as autoridades tinham enorme dificuldade em actuar, tudo se complicava. Roubos, assaltos à mão armada, tráfico de droga e diamantes, ataques à bomba, tumultos, manifestações, fogo posto, tiroteios, passaram a ocorrer com uma frequência avassaladora. Os próprios movimentos de libertação guerreavam-se sem dó nem piedade.
          No posto de comando do Batalhão, instalado no quartel do Regimento de Infantaria 20, choviam telefonemas a toda a hora, dia e noite, domingos e feriados. E as patrulhas não tinham mãos a medir. O descanso era pouco e os nervos andavam à flor da pele.
          E foi nesse ambiente alucinante que um dia, eu próprio, ao atender uma chamada do Quartel-general, recebi de um alferes a seguinte comunicação:
          — Meu capitão, deram um tiro no aeroporto.
          Fiquei possesso. Esperava tudo menos receber um telefonema daqueles. Apeteceu-me dar um raspanete ao jovem oficial por causa do tempo que me fez perder e desligar-lhe o telefone na cara. No meio daquele tiroteio todo, tiro a mais, tiro a menos, não fazia qualquer diferença. Mas, de repente, cheguei à conclusão que, para uma mensagem estúpida, só uma pergunta estúpida para o desconcertar:
          — Ó senhor alferes, o tiro ainda lá está?
 
 
publicado por Fernando Vouga às 21:48

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