Segunda-feira, 28 de Maio de 2007

Moçambique, 1966

Azeite e vinagre
 
  
Terras de Macondes (Imagem adaptada do Google Earth)
 
O sargento das transmissões, com ar de caso, passou-me para a mão uma mensagem insólita. O texto parecia estranho…
Não contive o riso, porque sabia bem o significado de tão desusada missiva. Com efeito, na véspera, vindo de Mueda em coluna militar, e a pedido do comandante da Companhia de Miteda, fiz um desvio para deixar alguns mantimentos em Nangololo. Esta localidade era apenas o que restava de uma missão católica, abandonada desde o começo da rebelião no planalto de Mueda. E. para que a guerrilha não a destruísse, foi decidido que lá permanecesse um pelotão (cerca de trinta homens) a garantir a segurança. Não dispondo de pista de aterragem para aviões ligeiros, só podia ser reabastecida por terra, embora eventualmente fossem lançados de avião sacos de correio e alguns mantimentos que resistissem à queda.
Nangololo não ficava em caminho, mas era uma autêntica obra de caridade andar mais uns quilómetros para evitar que se corresse o risco inerente a uma coluna auto, só para transportar umas dezenas de quilos. Naquelas paragens — estou a falar do célebre planalto de Mueda — as picadas estavam infestadas de guerrilheiros que, a cada passo, nos contemplavam com emboscadas, flagelações e minas.
Porém, ao receber a encomenda, o sargento encarregado dos géneros alimentícios de seu nome (real) Vinagre ficou horrorizado quando verificou que se tinham esquecido de fornecer o precioso azeite, sem o qual quase nada se pode cozinhar. Pediu-me então que, quando o avião dos frescos aterrasse em Muidumbe, a sede da minha Companhia, eu pedisse ao piloto para lançar uma lata de azeite no terreiro em frente da igreja.
— Mas isso é uma loucura. Não temos pára-quedas e a lata vai rebentar ao bater no chão. Isto se o piloto conseguir acertar com ela no vosso terreiro. O mais provável é cair no mato e os “turras” ficarem com o azeite.
Mas o sargento estava inconsolável. Fez-me prometer que eu faria uma tentativa. E que me enviaria uma mensagem a lembrar.
Chegado ao meu destino, mal recebi a mensagem misteriosa, mandei meter num saco de farinha uma lata envolvida em capim e, dias depois, convenci um piloto a fazer tiro ao alvo com ela…
E foi então que o sargento das transmissões percebeu a mensagem subjacente ao texto que me apresentara dias antes. Porque nele apenas constava:
vinagre se possível azeite”.
 
Igreja da Missão de Nangololo (Imagem actual captada na NET)
 
Muidumbe - 1966 - o avião dos frescos e do correio (DO27)
 
 
À laia de epílogo: Já que a história é verdadeira, sem tirar nem pôr, falta dizer o que aconteceu com o azeite. Para desgosto de todos, perdeu-se porque a lata rebentou ao cair.
 
 
publicado por Fernando Vouga às 17:17

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