Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Das Trincheiras com Saudade

 

 

            O livro que aqui apresento pode muito bem servir de exemplo a certos “ficcionistas” de “fast food” livreiro que, servindo-se de acontecimentos reais, aproveitam para ganhar uns trocos à custa de deturparem completamente o ambiente em que se situam as suas narrativas. Ao ponto de passarem a constituir uma despudorada mentira.
            “Das Trincheiras com Saudade” é um extenso ensaio, quase um tratado, sobre a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial.
            Escrito de forma metódica, muito clara e acessível e com muitas imagens, dá-nos uma visão descomprometida e isenta do comportamento das nossas tropas nesse terrível conflito. Os acontecimentos são-nos apresentados com toda a crueza que caracterizou a guerra em questão, que decorreu numa época em que não havia qualquer respeito pela vida dos soldados. Estes eram visto apenas como carne para canhão.
            Mas nada melhor que algumas palavras da autora, Isabel Pestana Marque, para caracterizar o ambiente geral em que viveram e morreram alguns milhares de portugueses.
            «Mas, com o evoluir da contenda militar e da própria política interna portuguesa, a Guerra das Trincheiras tornou-se um espaço de sofrimento, de perigo, de desilusão, de abandono e até de traição, gerador de cisões significativas entre os cidadãos e os governantes e entre os militares e os políticos, expressas por mágoas e ódios muitas vezes intransponíveis.»
publicado por Fernando Vouga às 19:14

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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Lixo

            Pulula por aí, mesmo nas melhores livrarias, uma certa “literatura” sobre a Guerra do Ultramar. Volumes de larga lombada exibindo na capa fotografias do conflito. Por enquanto, encontrei três, todos no mesmo escaparate duma livraria. Por sinal, dois deles, sendo de editoras e autores diferentes, têm na capa a mesma fotografia.
            Comprei dois e não gostei de nenhum (nem sequer passei de meio). Tratavam-se de histórias repletas de clichés sensacionalistas onde, por exemplo, os militares de carreira são todos venais, cornudos e cobardes. Por outro lado, os restantes, coitadinhos, são os únicos a arriscarem a pele e, além disso, obrigados a cometer toda a espécie de atrocidades.
            Escritos por vezes com a vulgaridade de um carroceiro de antanho, pretendendo mostrar “outra face da guerra”, transportam-nos para uma visão deturpada, direi mesmo invertida, dos acontecimentos. Como se toda a guerra tivesse sido uma lixeira onde todos chafurdavam. Uns, à cata de lucros, medalhas e promoções e outros, quais títeres nas mãos dos primeiros, a sofrer, inocentes, todas as agruras da guerra.
            É legítimo ao ficcionista pintar, com as suas próprias cores, o seu quadro. Porque cada um terá a sua leitura. Tira aqui, acrescenta acolá, modifica, exagera, atenua, omite, inventa. Mas, se for minimamente honesto, terá de deixar transparecer algo de verdade, uma vez que a acção se situa num acontecimento marcante da nossa História recente, a guerra do Ultramar. Não se pode pintar o oceano como se fosse uma montanha. Terá de haver, na ficção minimamente séria, um fundo de verdade. Porém, já não me parece tão legítimo distorcer os acontecimentos, reais ou ficcionados, a ponto de enganar completamente os leitores. Como se a ignorância generalizada que grassa por aí fora sobre a Guerra Colonial e o 25 de Abril não bastasse.
            É que estamos a falar de uma guerra em que toda uma geração de portugueses foi sacrificada. Travada sem brilho nem convicção, diga-se em abono da verdade. Mas, no cômputo geral, as Forças Armadas comportaram-se com dignidade e deram o seu melhor. Pobres, à base de conscritos, mal armadas, equipadas e treinadas, tinham todas as razões para se sentirem desmotivadas, dado que o poder político se mostrou desde o início incapaz de solucionar o problema. Mas aguentaram-se treze anos e não foram derrotadas no terreno. Como todas, esta guerra teve os seus aspectos condenáveis. Mas não se pode tomar a árvore pela floresta. A guerra foi um erro, mas não uma lixeira.
 
            E já que se fala em lixeira, encontrei nela o lugar ideal para me ver livre de tais livros.
 

 
publicado por Fernando Vouga às 15:23

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