Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Dois generais...

 

            Durante a batalha de Waterloo, Pierre Cambronne, general do Exército de Napoleão, celebrizou-se, não pelo comportamento heróico que teve, mas por, num acto de desespero, ter pronunciado uma palavra pouco elegante.
            Apesar de sua posição estar a ser fortemente fustigada pela artilharia inglesa, recusou render-se, disposto a vender cara a sua vida. Impressionados com a bravura do general e dos seus homens, num acto de cavalheirismo, os ingleses ofereceram-lhe uma rendição honrosa. E insistiram tantas vezes na proposta, que Cambronne, enfadado com a insistência, não se conteve e disse “merde”. Segundo rezam testemunhas que estavam presentes, essa foi a sua última palavra antes de ter tombado gravemente ferido e, de seguida, ser capturado pelo inimigo.
            Este é um caso exemplar em que uma palavra, normalmente ofensiva e soez, adquiriu a categoria de simples interjeição inofensiva que em nada obscureceu o prestígio de quem a proferiu.
            Cerca de dois séculos passados, assistimos à desvergonha inglória de outro general, na qualidade de Chefe de Estado, usar também a mesma palavra para insultar milhares de concidadãos que não partilham as suas ideias. Derrotado numas eleições nas quais pensava legitimar as suas ambições totalitaristas (caso tivesse ganho nunca mais se calaria a elogiar as virtuosidades do acto eleitoral), optou por tirar a máscara e revelar o lobo por debaixo da pele de cordeiro.
            Entre os generais Cambronne e Chavez há um abismo imenso. Enquanto um passou à História como herói, apesar da palavra feia que o imortalizou, o outro passará sem dúvida como mais um tiranete boçal, grotesco e desbocado.
publicado por Fernando Vouga às 17:49

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