Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Em que ficamos?

 

 
 
 
Mário Crespo. Jornalista


«Pronto! Finalmente descobrimos aquilo de que Portugal realmente precisa: uma nova frota de jactos executivos para transporte de governantes. Afinal, o que é preciso não são os 150 mil empregos que José Sócrates anda a tentar esgravatar nos desertos em que Portugal se vai transformando. Tão-pouco precisamos de leis claras que impeçam que propriedade pública transite directamente para o sector privado sem passar pela Partida no soturno jogo do Monopólio de pedintes e espoliadores em que Portugal se tornou. Não precisamos de nada disso. Precisamos, diz-nos o Presidente da República, de trocar de jactos porque aviões executivos "assim" como aqueles que temos já não há "nem na Europa nem em África". Cavaco Silva percebe, e obviamente gosta, de aviões executivos. Foi ele, quando chefiava o seu segundo governo, quem comprou com fundos comunitários a actual frota de Falcon em que os nossos governantes se deslocam.

Voei uma vez num jacto executivo. Em 1984 andei num avião presidencial em Moçambique. Samora Machel, em cuja capital se morria à fome, tinha, também, uma paixão por jactos privados que acabaria por lhe ser fatal. Quando morreu a bordo de um deles tinha três na sua frota. Um quadrimotor Ilyushin 62 de longo curso, versão presidencial, o malogrado Antonov-6, e um lindíssimo bimotor a jacto British Aerospace 800B, novinho em folha. Tive a sorte de ter sido nesse que voei com o então Ministro dos Estrangeiros Jaime Gama numa viagem entre Maputo e Cabora Bassa. Era uma aeronave fantástica. Um terço da cabina era uma magnífica casa de banho. O resto era de um requinte de decoração notável. Por exemplo, havia um pequeno armário onde se metia um assistente de bordo magro, muito esguio que, num prodígio de contorcionismo, fez surgir durante o voo minúsculos banquetes de tapas variadíssimas, com sandes de beluga e rolinhos de salmão fumado que deglutimos entre golinhos de Clicquot Ponsardin. Depois de nos mimar, como por magia, desaparecia no seu armário. Na altura fiz uma reportagem em que descrevi aquele luxo como "obsceno". Fiz nesse trabalho a comparação com Portugal, que estava numa craveira de desenvolvimento totalmente diferente da de Moçambique, e não tinha jactos executivos do Estado para servir governantes.

Nesta fase metade dos rendimentos dos portugueses está a ser retida por impostos. Encerram-se maternidades, escolas e serviços de urgência. O Presidente da República inaugura unidades de saúde privadas de luxo e aproveita para reiterar um insuspeitado direito de todos os portugueses a um sistema público de saúde. Numa altura destas, comprar jactos executivos é tão obsceno como o foi nos dias de Samora Machel. Este irrealismo brutalizado com que os nossos governantes eleitos afrontam a carência em que vivemos ultraja quem no seu quotidiano comuta num transporte público apinhado, pela Segunda Circular ou Camarate, para lhe ver passar por cima um jacto executivo com governantes cujo dia a dia decorre a quilómetros das suas dificuldades, entre tapas de caviar e rolinhos de salmão. Claro que há alternativas que vão desde fretar aviões das companhias nacionais até, pura e simplesmente, cingirem-se aos voos regulares. Há governantes de países em muito melhores condições que o fazem por uma questão de pudor que a classe que dirige Portugal parece não ter.

Vi o majestático François Miterrand ir sempre a Washington na Air France. Não é uma questão de soberania ter o melhor jacto executivo do Mundo. É só falta de bom senso. E não venham com a história que é mesquinhez falar disto. É de um pato-bravismo intolerável exigir ao país mais sacrifícios para que os nossos governantes andem de jacto executivo. Nós granjearíamos muito mais respeito internacional chegando a cimeiras em voos de carreira do que a bordo de um qualquer prodígio tecnológico caríssimo para o qual todo o Mundo sabe que não temos dinheiro.»

            Não é meu hábito fazer transcrições, embora subscreva inteiramente este texto. Mas achei que ele pode servir para ilustrar o meu ponto de vista.
 
            Penso que o seu autor não poderá ser alvo de queixa-crime por ter escrito estas palavras. Elas retratam a triste realidade do nosso país. E quem ficou mal na fotografia não foi o fotógrafo mas os fotografados. Estes sim, é que deveriam ser alvo da Justiça. Ou seja, as palavras de Mário Crespo não são “ofensivas dos órgãos de soberania e respectivos titulares”(*). O que é ofensivo é o comportamento de alguns desses titulares. E este jornalista, ao denunciá-lo, revelou um grande sentido patriótico.
 
            Porém, se este texto tivesse sido escrito por um militar na reforma, o que é que poderia acontecer?
            Deixo a pergunta no ar.
 
(*) Texto retirado do Artº. 16º do "novo" RDM (praticamente igual ao dever 15º do Artº 4º do RDM em vigor).

 

 

publicado por Fernando Vouga às 14:14

link do post | comentar | favorito
|
3 comentários:
De Carlos rebola a 17 de Abril de 2008 às 16:26
O que me poderia acontecer?
Ainda há mais para nos acontecer?!
Bem há sempre o fuzilamento... pode sempre aludir-se que está em causa a soberania (imagem?) nacional.
Que "nunca por calados nos conheçam"

Um abraço
Carlos Rebola
De António José Trancoso a 18 de Abril de 2008 às 09:52
Caro Fernando Vouga
Se bem me lembro (parafraseando Vitorino Nemésio) o artº 16 do antigo RDM impedia que um Militar se pusesse "de gatas"...
É claro que a Brigada do Reumático não estava, tacitamente, abrangida.
Agora, em nome da "transparência" e do poder emanente do "lobbie da moda", o antigo e viril preceito foi banido, e, substituída a sua redacção pela que transcreve.
Assim, é preciso muito "cuidadinho" e muita "delicadeza" para lidar com a mentalidade dominante ( não vão eles ofender-se...).


De CL a 23 de Abril de 2008 às 12:36
:s
Realmente o novo RDM, pelo que se ouve falar dele, promete... :s
Onde o posso consultar? Ainda não consegui le-lo e gostaria de analisa-lo com calma. Acho que vai ser necessária muita acção...
Se mo puderem enviar: aoutravoz@yahoo.com
Muito obrigada!

Comentar post

E.Rec.2640

pesquisar

 

Setembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

Notas recentes

Só pode ser piada

Para quem gosta de ler

A luta armada na Guiné

Para quem gosta de ler

Para quem gosta de ler

A guerra na Guiné

Foi há 48 anos...

Despesa que não morreu

10 de Junho

Mas que golpada!

Arquivos

Setembro 2016

Abril 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Maio 2015

Abril 2014

Julho 2013

Junho 2013

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Fevereiro 2012

Maio 2010

Março 2010

Janeiro 2010

Outubro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Agosto 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Favoritos

Para onde vais, América?

Ligações

Visitas

conter12

E.Rec.2640

blogs SAPO

subscrever feeds