Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Lixo

            Pulula por aí, mesmo nas melhores livrarias, uma certa “literatura” sobre a Guerra do Ultramar. Volumes de larga lombada exibindo na capa fotografias do conflito. Por enquanto, encontrei três, todos no mesmo escaparate duma livraria. Por sinal, dois deles, sendo de editoras e autores diferentes, têm na capa a mesma fotografia.
            Comprei dois e não gostei de nenhum (nem sequer passei de meio). Tratavam-se de histórias repletas de clichés sensacionalistas onde, por exemplo, os militares de carreira são todos venais, cornudos e cobardes. Por outro lado, os restantes, coitadinhos, são os únicos a arriscarem a pele e, além disso, obrigados a cometer toda a espécie de atrocidades.
            Escritos por vezes com a vulgaridade de um carroceiro de antanho, pretendendo mostrar “outra face da guerra”, transportam-nos para uma visão deturpada, direi mesmo invertida, dos acontecimentos. Como se toda a guerra tivesse sido uma lixeira onde todos chafurdavam. Uns, à cata de lucros, medalhas e promoções e outros, quais títeres nas mãos dos primeiros, a sofrer, inocentes, todas as agruras da guerra.
            É legítimo ao ficcionista pintar, com as suas próprias cores, o seu quadro. Porque cada um terá a sua leitura. Tira aqui, acrescenta acolá, modifica, exagera, atenua, omite, inventa. Mas, se for minimamente honesto, terá de deixar transparecer algo de verdade, uma vez que a acção se situa num acontecimento marcante da nossa História recente, a guerra do Ultramar. Não se pode pintar o oceano como se fosse uma montanha. Terá de haver, na ficção minimamente séria, um fundo de verdade. Porém, já não me parece tão legítimo distorcer os acontecimentos, reais ou ficcionados, a ponto de enganar completamente os leitores. Como se a ignorância generalizada que grassa por aí fora sobre a Guerra Colonial e o 25 de Abril não bastasse.
            É que estamos a falar de uma guerra em que toda uma geração de portugueses foi sacrificada. Travada sem brilho nem convicção, diga-se em abono da verdade. Mas, no cômputo geral, as Forças Armadas comportaram-se com dignidade e deram o seu melhor. Pobres, à base de conscritos, mal armadas, equipadas e treinadas, tinham todas as razões para se sentirem desmotivadas, dado que o poder político se mostrou desde o início incapaz de solucionar o problema. Mas aguentaram-se treze anos e não foram derrotadas no terreno. Como todas, esta guerra teve os seus aspectos condenáveis. Mas não se pode tomar a árvore pela floresta. A guerra foi um erro, mas não uma lixeira.
 
            E já que se fala em lixeira, encontrei nela o lugar ideal para me ver livre de tais livros.
 

 
publicado por Fernando Vouga às 15:23

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5 comentários:
De António José Trancoso a 11 de Maio de 2008 às 13:59
Caro Monteiro Vouga
Li, do princípio ao fim, um dos livros do lote que menciona.
A acção desenrola-se em Cabo Delgado, que o autor denomina, erradamente, de "Estado de Minas Gerais".
Essa designação, em rigor, diz respeito, isso sim, ao Niassa.
Depois, retrata o Capitão, Comandante da Companhia ( que se depreende do QP) como um indivíduo mal formado - injusto e vingativo - capaz de todas as arbitrariedades.
Fica-se com a ideia, subreptícia e tendenciosa, que os Militares de Carreira, afinarão, de um modo geral, pela mesma bitola...
É a visão, sectariamente, anti-militarista, do autor.
Na realidade, em todos os escalões e proveniências - de um universo "embarcado" numa situação criada, e mantida, pela teimosa opção política do antigo regime - haveria gente, maioritariamente correcta, e, nalgumas franjas... não tanto.
Quem fez a Guerra Colonial sabe disso, podendo citar inúmeros exemplos de abnegação, e generosidade, que sobrelevam os que possam ser apontados como menos dignos.
Por outro lado, o relato assenta numa escrita - linguagem, exageradamente cavernícula, que, talvez, visando o êxito nas vendas, lhe retira credibilidade.
A nota final não pode deixar de ser negativa.
Muito se irá, ainda, escrever sobre o que, de bom e mau, sempre existiu no meio militar.
Há que fazê-lo com a elevação adequada.
Um abraço.

De Fernando Vouga a 25 de Agosto de 2008 às 22:48
Caro António Trancoso

Vê-se bem que andou na guerra e em Moçambique. Apesar de miliciano, o meu amigo faz parte de uma maioria que, não sendo propriamente silenciosa, consegue julgar os factos com honestidade e isenção.
De José Brandão a 25 de Agosto de 2008 às 16:13
Fernando da Costa Monteiro Vouga é um é um caso bastante raro em matéria de participação e conhecimento da guerra colonial portuguesa.
As três comissões que cumpriu colocaram-no em Moçambique de 66 a 68, na Guiné de 69 a 71 e em Angola de 72 a 74.
Esta situação de ter estado em todas as três frentes de guerra, faz de Fernando Vouga, (ou Costa Monteiro) um super veterano de guerra.
Com a experiência que apresenta no seu currículo ao serviço do Exército português, Fernando Vouga, agora retirado da vida militar, dedicou-se à escrita e em boa hora o fez, já que trouxe até nós uma leitura que vem revelar um talento sapiente que seria imperdoável deixar escapar.
Com o orgulho de quem tem Fernando da Costa Monteiro Vouga como amigo, aqui ficam estas notas de apresentação e um prefácio do próprio:

COSTA MONTEIRO
Fernando da Costa Monteiro Vouga, nasceu em Lamego, em 1940. Após ter terminado os seus estudos liceais, alistou-se como voluntário no Exército, tendo ingressado na Academia Militar onde frequentou o curso de Cavalaria.
Promovido a oficial, foi colocado em várias unidades da sua arma. Depois desempenhou diversas funções, em que se destacam oito anos como professor do Instituto de Altos Estudos Militares, em Lisboa.
Frequentou cursos profissionais, dois dos quais nos Estados Unidos. Terminou a sua carreira militar como oficial de ligação junto à Agência Logística da OTAN, no Luxemburgo, com o posto de coronel. Reformou-se aos cinquenta e dois anos.
Literariamente Costa Monteiro já tem várias obras publicadas mas são para as cuja acção se desenrola em Moçambique que chamo a vossa atenção: "TRAVESSIA" e "CAMINHOS PERDIDOS NA MADRUGADA". No seu essencial entre Cabo Delgado e a Zambézia. Retrato de uma época que não mais se apagará da memória de quem a viveu, mas que urge dar a conhecer a todos os portugueses.

«PREFÁCIO de TRAVESSIA
Há cerca de dois anos que abandonei definitivamente a minha actividade profissional, aceitando as condições favoráveis de uma reforma antecipada. Foi uma decisão que teve em linha de conta vários factores, nos quais ponderei os eventuais efeitos negativos de uma possível inactividade, do abandono de uma carreira interessante e de uma camaradagem de que gostava. Mas sempre acalentei o desejo de me retirar cedo da efectividade do serviço, a tempo de experimentar outro género de trabalho sem o constrangimento dos horários e com a faculdade de dispor dos meus recursos em plena liberdade.
Comecei a ler muito cedo. Aos quinze anos, aproveitando a vasta biblioteca do meu Pai, já tinha lido quase toda a obra de Eça e grande parte da de Camilo, além de outros. A partir daí, sempre desejei escrever. Pareceu-me que chegou a hora de começar a realizar o sonho mais caro da minha adolescência. Foi por isso que resolvi dedicar o meu tempo a fazê-lo. Para mais, embora não seja proibido, escrever dá-me prazer.
Este meu primeiro trabalho é um simples conjunto de pequenas histórias destinadas a ganhar balanço para outras digressões no campo da comunicação escrita. A maioria delas são inspiradas nos seis anos que vivi em África, em plena guerra colonial, talvez o período mais interessante da minha vida, apesar da guerra. Não pela guerra em si, mas pela oportunidade que tive de contactar com outras terras, outras civilizações, outros costumes, outras gentes. Seis anos que abalaram muitas das minhas convicções sobre aquilo a que teimamos chamar civilização. Mesmo considerando como melhor a nossa, civilizar outros povos, impor os nossos padrões de civilização, pode assemelhar-se a plantar eucaliptos fora da Austrália ou criar crocodilos no Alentejo. As vantagens a longo prazo podem não ser as melhores.
Estive em Moçambique, na Guiné e em Angola por causa da guerra. Guerra esta que, como todas as outras, tem leis e princípios que não se violam impunemente. Talvez por essas razões, fiz a guerra o melhor que pude e que sabia. No mínimo, por respeito por mim próprio e pela vida e integridade de centenas de jovens que me foram confiados. Acredito que a guerra é uma doença da sociedade. Não há doenças justas ou injustas, há apenas doenças más. Catalogar as guerras em justas e injustas pode não passar d
De Fernando Vouga a 25 de Agosto de 2008 às 22:57
Caro amigo

Os eus elogios deixam-me um tanto confuso. Sou por natureza discreto e modesto (nunca usei as condecorações que me deram). Mas confesso que, vindos da sua parte, os elogios e a divulgação de livros meus me sensibilizaram muito.
É que o José Brandão não é propriamente um escritor aprendiz. Tem uma vasta obra publicada nas melhores editoras, para lá da sua colaboração nos jornais de maior prestígio.
Um abraço.
De traumilla bimbi a 28 de Agosto de 2008 às 23:38
Li com atenção e interesse o artigo e os comentários e gostaria apenas de reiterar o elogio que foi tecido ao autor deste blogue, que tive a felicidade de conhecer pessoalmente e que admiro muito, não obstante a minha ignorância no que respeita ao assunto da Guerra Colonial. Li e reli os Caminhos Perdidos na Madrugada e parece-me uma questão de justiça que a obra seja republicada e apreciada pelo maior número de leitores possível. Pela minha parte, até agora, pude apenas divulgá-la no meu blogue, em http://blogarecagente.blogs.sapo.pt/18732.html , mas deixo aqui a minha oferta de colaborar na elaboração da capa da nova edição, caso o Fernando queira!

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