Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Tiro no pé

 

 

Como querem que amanhã na guerra eu faça o que deva fazer, se hoje me faltar a coragem para dizer aquilo que penso.
 
Coronel Serpa Soares (Comandante da Escola Prática de Cavalaria – 1957-58)
 
 
          O actual Regulamento de Disciplina Militar (RDM), acabado de ser promulgado pelo Presidente da República, pela sua concepção retrógrada, constitui um tremendo disparate — um autêntico tiro no pé— só comparável ao tristemente famoso decreto 353/73 do General Sá Viana Rebelo. Decreto este que, como se sabe, veio a dar o pontapé de saída ao 25 de Abril.
          Parece assim que os actuais responsáveis, políticos e militares, já esqueceram a lição da “Brigada do Reumático”, em que se provou que a hierarquia militar da altura não tinha qualquer prestígio nem controlo sobre os seus subordinados. O que significa que as medidas repressivas, então implementadas, não resolveram nada.
          Pretender subjugar os militares através da intimidação, para lá de lhes criar eventuais hábitos de mentira e cobardia, só vai aumentar o fosso entre comandantes e comandados. Uma tropa assim poderá apresentar-se com grande luzimento em paradas, desfiles e demonstrações, mas falhará na hora da verdade.
 
          Porém, como se tal não chegasse, este RDM permite a punição de militares na reforma. Algo nunca visto, mas que tem tanto de enviesado como de imprudente. Para lá de tal medida não ser minimamente credível e a sua eficácia ser mais que duvidosa. O que é, no mínimo, caricato, para não dizer grotesco.
          Pelo que me diz respeito, vou continuar a dizer e escrever o que penso. Aqui e onde me apetecer. Se me punirem, o que não me afectará minimamente, terei o cuidado de não poupar os meus comentários. E prometo desde já que, se tal me acontecer, encaixilharei o texto da punição, para ser colocado em local de destaque da minha sala de estar. Ser punido por um regulamento iníquo não é nenhuma vergonha. Antes pelo contrário, é uma honra.
 
publicado por Fernando Vouga às 12:44

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5 comentários:
De Luís Alves de Fraga a 19 de Julho de 2009 às 18:29
Meu Caro Coronel Fernado Vouga,
Esta Lei não vai desencadear nenhuma revolta militar, porque os "frutos" ainda não estão maduros! Tudo tem o seu tempo e os nossos políticos e as próprias chefias militares têm a noção clara disso mesmo.
O que, quanto à reforma, esta Lei acautela é a possibilidade de começarem a aparecer oficiais e sargentos reformados fardados em manifestações ou, em última análise, a pedir esmola em qualquer praça pública! Uma vez mais, importante não é o conteúdo, mas o que pode pensar-se dele! Importante são as aparências!
Com o meu processo disciplinar as chefias e os políticos perceberam que não é pela via disciplinar que podem defender-se de ouvir o que não gostam... Eles já sabem que é pela via judicial que têm de actuar. Todavia, querem é evitar a "acção directa", o deslustre da farda! Veja bem! Retirando direitos aos militares reformados continuam preocupados com a reacção pública dessa gente fardada!
Agora podemos "ladrar", porque a "caravana" vai lá muito em cima... Perigoso - para eles e para quem o fizer - é "morder" as "canelas" de algum camelo (da dita caravana, claro!).
De qualquer modo, este RDM é muito RD e pouco M. Está ao nível da categoria dos legisladores e seus acólitos!
Um forte abraço
De Fernando Vouga a 20 de Julho de 2009 às 00:27
Caríssimo amigo

O que urge fazer nas Forças Armadas não é mudar o RDM mas sim o estilo da liderança.
Não se pode estar por um lado a enganar as pessoas e, por outro, tentar silenciá-las. Da parte de quem nos governa e chefia há que enveredar, de uma vez por todas, pelos caminhos da rectidão e da seriedade . Há que abandonar os velhos métodos onde predominavam a arrogância e a prepotência (quase sempre resultantes de muita incompetência).

Um abraço.
De Artolas a 20 de Julho de 2009 às 20:25
Senhores Coronéis

Só para a morte é que não há remédio!
Haverá alguma coisa que impeça que os Militares participem numa manifestação, trajando civilmente...com uma sua fotografia (fardado) pendurada ao pescoço!?!
Sempre gostaria de ver como o novo RDM descalçaria a bota!
Um abraço do Cadete mais antigo deste País.
De Reformado a 21 de Julho de 2009 às 12:07
Sr. Artolas
A ambiguidade da disposição regulamentar (desrespeito pela farda...) poderia implicar, os portadores, da respectiva foto, no âmbito daquela disposição.
Porém, trajando civilmente, há alternativas!
Aqui vão duas:
Uma - Uso de gravata (preta, em sinal de luto) com o distintivo do posto( estrelas, galões, divisas) nela gravado ;
Outra - Uso, ao peito, de uma pequena placa, identificadora de um posto.
Cumprimentos a todos os participantes neste blog.
De António José Mendes Dias Trancoso a 23 de Julho de 2009 às 08:57
Caro Monteiro Vouga
De facto, o novo RDM serve para tudo e seu contrário. É mais uma das "habilidades" jurídicas, em que o nosso país é fértil.
Assim, se os Homens forem sérios,serve; se não o forem...serve na mesma.
Um abraço.

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