Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Os Militares e a História Recente

 

 
 
Tem-se notado ultimamente, talvez devido ao agravamento da crise económica, uma animosidade crescente contra as Forças Armadas. Animosidade esta que, cinicamente, os sucessivos Governos vão alimentando com a cumplicidade do silêncio. No fundo, estão a ser transformadas no bode expiatório de todos os males que hoje afligem os estratos sociais menos favorecidos — já que os outros continuam a viver “à tripa forra”. Em traços largos, grita-se por todo o lado que, se não fosse o 25 de Abril de 74 — uma irresponsabilidade e cobardia — hoje viveríamos no paraíso. Que os militares de carreira quebraram o juramento de fidelidade à Pátria, debandando de uma guerra de que tinham medo.
Parece-me assim, oportuno avivar a memória das cabeças mais agitadas, para que passem a apontar as suas setas aos verdadeiros responsáveis pelo descalabro corrupto de que enferma a nossa (des)governação actual.
Embora haja hoje, pasme-se pelo delírio, quem diga que a guerra estava quase ganha, não restam dúvidas de que estava condenada à partida. Basta ver o que se passou no Vietname e se está a passar hoje no Iraque e no Afeganistão. E a maioria os mais altos responsáveis pelo regime salazarista, de mãos dadas com os que mais beneficiavam dele, sabiam-no, ao ponto de baldarem os seus filhos à guerra. Para tal, usavam as suas influências pessoais e as mais torpes artimanhas, como sejam compras de testes aos dactilógrafos, radiografias e exames médicos falsificados, cursos no estrangeiro.
Os militares de carreira, passado o entusiasmo inicial de Angola, cedo se aperceberam de que Portugal estava num beco sem saída, isolado e ridicularizado por tudo e todos. Mesmo assim, deram o seu melhor e consentiram ao regime treze longos anos para que a questão ultramarina fosse resolvida. Mas, tanto Salazar como Marcelo, foram incapazes de contrariar os interesses de uma clique “patriotiqueira” (Eça de Queiroz) de ultra direitistas que tinha muito a perder com qualquer espécie de mudança. Mais ainda, apesar do seu esforço, esses militares, uma minoria dentro da totalidade de oficiais envolvidos na guerra, notaram que estavam a ser alvo de uma descredibilização para depois serem culpabilizados pela derrota inevitável. O próprio general Spínola refere este triste expediente no seu livro “Portugal e o Futuro”.
Perante a aproximação do abismo para que Portugal estava a ser lançado, tornava-se urgente derrubar o governo antes que forças políticas, tão revolucionárias como incontroláveis, o fizessem. A demora poderia resultar no banho de sangue preconizado pelas teorias mais radicais. É bom que não se esqueça esse pormenor.
Mesmo assim, como era previsível, não foi possível evitar os desmandos que se seguiram. Porque os portugueses não estavam minimamente preparados para a democracia. E nem sequer é preciso escrever uma tese de doutoramento de cinco mil páginas para o provar… Nessa conformidade, todos sabiam que, por culpa da repressão feroz do anterior regime, toda e qualquer mudança iria lançar o país às feras. E foi o que aconteceu: elas surgiram de imediato, vindas principalmente de exílios dourados ou vermelhos!
Mesmo nesse ambiente conturbado, do qual alguns (poucos) militares são também responsáveis, foi possível, com altos e baixos, entregar o poder a quem de direito: à sociedade civil. E sem derramamento de sangue.
O que se passou nos mais de trinta anos que se seguiram não é culpa dos militares. Deve-se à incompetência e cupidez da classe política. Será de perguntar: o que é que os militares que marcharam para Lisboa na madrugada de 25 de Abril de 1974 têm a ver com todo o imenso cortejo de escândalos vergonhosos que envolvem a classe política e seus compadres?
O que se está a passar é puro oportunismo para sacudir a água do capote, deturpar a História e atirar com poeira aos olhos dos portugueses.
publicado por Fernando Vouga às 15:20

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