Domingo, 2 de Abril de 2006

Um conto quase real

 

O MOURARIA

 

            Grande algazarra na parada. Centenas de soldados olhavam pasmados o céu. Será um satélite ar­tificial? Não, na disso! No topo da enorme antena de VHF do quartel da Cavalaria em Castelo Bran­co, um soldado, de fralda de fora, gesticulava com o único braço livre. Com o outro,  segurava-se ao poste.

            — É o Mouraria, é o Mouraria! Diz que se vai atirar dali para baixo, se não o deixarem ir a casa este fim-de-semana.

            No fundo, o Mouraria era um «vasilha torta» mais ou menos inofensivo, cujas partidas e trope­lias  eram por vezes divertidas. Só quando abusava da bebida é que se tornava incómodo e obrigava a actuações mais firmes.

            O homem continuava a gesticular, ora com um braço, ora com o outro, e nem descia nem cum­pria a ameaça, na qual ninguém acreditava. Como não o demovessem a aban­donar o poleiro improvi­sado, tornou-se necessário chamar o comandante que se deslocou até à antena e tentar convencê-lo a descer, o que nem foi demo­rado,  nem obrigou a grandes argumentos. Afinal, parecia que o proble­ma era apenas falta de atenção. Recebeu o raspa­nete como os que se dão a um menino reguila que provocou o pai para ver se ainda gostava dele...

            Embarcado no navio Uíge, o nosso Mouraria continuava a dar nas vistas, tentando atrair a aten­ção de todos, umas vezes pela falta de atavio, ou­tras vezes por ter bebido umas cervejas a mais, ou­tras ainda por desaparecer no emaranhado dos po­rões, transformados em latas de sardinha para «acomodar» os soldados. Não sendo propriamente mal comportado, exigia um cuidado e vigilância espe­ciais, que nem sempre lhe podiam ser dispensados. Muitas vezes, o me­lhor remédio era fingir que não se via nada, o que parecia não ser muito do seu agrado.

            As coisas na viagem foram-se aguentando, até ao dia em que a tripulação do navio apresentou queixa ao comandante do contingente embarcado, porque havia um soldado, de fralda de fora, a gesti­cular no alto do mastro principal, junto à flâmula. Foi necessário muita diplomacia para evitar que o Mouraria fosse castigado. Ameaçado de ser metido a ferros no alto mar, prometeu solenemente que se ia portar bem durante o resto da viagem.

            Chegado a Bafatá, a terra do seu destino, não tardaram muitos dias que a antena do VHF fosse enfeitada pelo gesticulador de fralda de fora, desta vez em calções, o que o tornava ainda mais caricato. As ordens eram que ninguém lhe desse atenção, o que o levou a descer com «o rabo entre as pernas», e a deixar de repetir a graça.

            De estatura acima da média, cabelo arrui­vado e de olhos claros, ostentava orgulhosamente numerosas medalhas de bom comporta­mento, que variavam desde sinais de pedradas no coiro cabelu­do, até marcas de navalhadas em várias partes do corpo. Porém, demonstrou uma habilidade rara para o tea­tro. Durante a quadra do Natal, o Mouraria foi estrela de destaque numa patusca peça de teatro de desfecho san­grento, do género Shakes­pereano, onde repre­sentou,  com graça e mestria, o papel de Júlio Cé­sar em peripécias amorosas com Cleópa­tra. Por mais que se lhe explicasse que o seu travestido partenaire se chamava Cleópatra, ele não conse­guia deixar de pronunciar «Cleopantra», o que dava um ar ainda mais cómico à representa­ção. Ficou bem gra­vada na me­mória de todos o fi­nal dramático em que ele, antes de esfaquear a sua amada e se suici­dar, pronunciou as derradeiras pa­lavras que encer­ravam a tragédia:

            — Cleopantra, minha p..., puseste-me os cor­nos!!!

            Já tinha decorrido mais de um ano de comis­são, e o Mouraria ia sobrevivendo sem proble­mas de maior, fruto da cobertura que lhe davam os ca­maradas, do fechar de olhos dos graduados, e de lhe ter sido racionada a cerveja.

            Normalmente só dava problemas no quartel. Du­rante a actividade operacional, portava-se bem, e não largava a sua «seringa», uma enorme metra­lhadora Browning de meia polegada que guarnecia a sua viatura blindada. Cumpria as or­dens e nunca usava subterfúgios para se «baldar» a uma escolta ou operação mais arriscada. Só uma vez, no quartel, é que foi necessário intervir quando, depois de ter embor­cado num bar da vila umas tantas cervejas, resolveu tirar a cavilha de segurança a uma granada de mão e passear-se com ela na ca­serna, com poses ameaçadoras. Como de cos­tume, só acalmou quando o comandante falou com ele. Re­cebido o ralhete, foi para a cama ciente de que ainda havia alguém que lhe dava atenção.

            Já lhe faltavam poucos meses para acabar a comissão, quando o seu pelotão foi desta­cado para Piche, a fim de reforçar a guarnição lo­cal. Aí, no final duma tarde quente e húmida, acabado de regressar duma escolta a Buruntuma na fronteira com a hostil Guiné Conakri, o Mouraria foi cha­mado para limpar umas trincheiras da defesa do quartel. Já um tanto bebido e descontente com a ordem, travou-se de ra­zões com um graduado. Habituado nas ruas do seu bairro a resolver as coi­sas à sua maneira e, longe dos seus amigos que o conheciam bem e o segura­vam nestas ocasiões, le­vantou a enorme mão para o interlocutor.

            A justiça não se fez tardar perante um caso tão evidente de insubordinação. De nada lhe valeu o graduado ter retirado a queixa. Estando em Piche, o Mouraria foi o bode expiatório ideal para a apli­cação de um castigo exemplar. É que castigar du­ramente um  elemento «de fora», servia de intimi­dação e não fazia correr o risco de impopularidade interna...

            A prisão em Bissau foi o começo de uma odisseia misturada com uma es­calada de actos de indisciplina que acabaram nas enxovias do forte de Elvas. Nascido e criado na marginalidade da rua, incapaz de viver enquadrado por qualquer tipo de disciplina por mais compreensiva que ela fosse, o Mouraria completou assim, no mato e na prisão, cerca de quatro anos de serviço militar.

            A Pátria madrasta que nada lhe deu, só se lembrou dele para lhe meter uma arma na mão em defesa dos seus in­teresses, e para o punir por não o fazer da melhor forma.

 

Publicado no livro de contos “Travessia” de Costa Monteiro (Editorial Escritor, 1996)

 

 

publicado por Fernando Vouga às 22:19

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