Sábado, 8 de Abril de 2006

Realidade transformada em conto...

O ASSASSINO DA VOZ MEIGA 
            Em 1971 as coisas começaram a complicar-se no Leste da Guiné. Região relativamente calma e se­gura, passou a ser alvo de um recrudescimento de acções da guerrilha que tentavam desequilibrar as po­pulações, aliciando-as pela persuasão e pelo medo. Tornou-se cada vez mais necessário de­mons­trar que havia organização e força mais que suficiente para garantir a segurança das populações e dissua­di-las, por esse modo, de se passarem física ou mo­ralmente para o «outro lado». Come­çaram assim a planear-se operações em maior escala.
            Eram movimen­tos de tropas para um lado, movimento de tropas para outro. Desta vez, tratava-se de um bombardeamento de artilharia contra uma base de guerrilha na Guiné Conacri. Com destino a Piche, começaram a concentrar-se em Nova La­me­go canhões e mais canhões, todos de grosso calibre.  
            A população de Piche já nem estranhava. De vez em quando, era aquilo. Umas vezes mais, ou­tras vezes menos, mas ia dar sempre ao mesmo. A povoação era atravessada por uma enorme coluna de viaturas levando pesados canhões a reboque, e lá ia aquela tralha toda, sempre para os mesmos sí­tios, Sutucó ou Co­ache. Mais tarde, por cima da coluna, uma da­quelas avi­onetas cin­zentas dava voltas e mais vol­tas en­quanto se ouvia o ri­bombar dos canhões e, mais ao longe, as gra­nadas a re­ben­tarem. Final­mente, todo aquele aparato re­gressava aos locais de origem e tudo voltava por uns tempos à calma e à norma­li­dade.
            Só que desta vez foi diferente. Os canhões che­garam, mas não seguiram logo para o mato. É que o dia «D» era só dali a dois dias.
            Neste dia, o comandante da operação, um oficial da guar­nição de Piche, é que não estava muito pelos ajustes. Sair às três da tarde para Co­ache para fazer tiro com a artilharia, não é ordem que se dê. Para mais, não tinha dúvidas nenhumas que do «lado de lá» já se sabia tudo. O segredo da operação estava mais que quebrado, com aquela gente e material dois di­as ali. O local de destino era fácil de adivi­nhar... A emboscada era mais que certa. Embora isso fizesse parte dos riscos a ponderar, a aconte­cer ao fim da tarde, as conse­quências podi­am ser catas­tróficas. É que, depois do anoitecer, não pode haver apoio aéreo de ataque ao solo nem para evacua­ções sanitárias.
            Umas horas antes da partida da coluna, ater­rou na pista um avião ligeiro que trazia o co­mandante da arti­lharia, um homem bai­xinho, de cabelo muito curto, bem parecido e sorri­dente. Sempre de piada pronta e muito de falinhas mansas, tratando to­dos por «filho». Os soldados al­cu­nha­ram-no de «assassino da voz meiga», porque, ape­sar do trato afável e pa­ternal, era de mão pronta e pe­sada. Foi de imediato encontrar-se com o coman­dante da opera­ção.
            — Então filho, alguma novidade?
            Visivelmente preocupado com a situação e ci­ente da sua responsabilidade, o oficial tentou ex­plicar o enorme erro que se ia cometer. De mão beijada, ia dar-se aos turras uma oportunidade única de nos darem uma tareia enorme...
            — Ó homem, não se preocupe. As coisas têm que ser mesmo assim. O «velho»[1] quer que se faça tiro de noite. As povoações do lado de lá da fron­teira cola­boram com os turras e têm que «apa­nhar na touca» quando menos esperam.
            — Quando menos esperam? Durante estes dois dias, já toda a gente deu com a língua nos dentes. Vamos mas é deitar fora umas centenas de granadas de artilharia. Isto, se não houver azar. Se me dá licença, tenho que me ir embora, senão so­mos apanhados pela noite ainda no caminho. A pi­cada está péssima com estas chuvas.
            — Onde é que vai com tanta pressa? Deixe-se cá ficar, homem de Deus. Que diabo vai você fazer com a tropa para o mato? A rapaziada nova que re­solva o caso. Ó filho, vai ver que não aconte­ce nada!
            Mas o comandante da operação é que não esteve pelos ajustes. Expli­cou-se até onde pôde, insistiu, teimou... e de­pois seguiu acabrunhado para a coluna prestes a par­tir. Saiu às três da tarde, con­forme as ordens que tinha.
            À frente, marchava a guarda avançada for­mada por uns carros blinda­dos que sobraram da se­gunda guerra. Me­tralha­doras aperradas. Sor­risos amarelos, caras en­fia­das...
            Iniciou-se então um percurso penoso através de trilhos lamacentos, abertos pelos rodados de viaturas que ali tinham passado antes. O ambi­ente era pesado. Todos sentiam que a «coisa» andava no ar. Ia haver sarilho com certeza. Iam «embrulhar», como se dizia na Guiné.
            O sol ia bai­xando até à linha do hori­zonte, enquanto as viaturas, em primei­ra veloci­dade, ar­rastando os pesados ca­nhões, avan­çavam devagar, demasiado devagar. Soldados apeados mar­cha­vam aos lados e à frente a fazer protecção.
            Estava-se quase a chegar. Eram só mais uns dois quilómetros. De­pois de instalados no local previsto para o estaciona­mento, será mais seguro. Tinha-se a vantagem de o terreno ser esco­lhido por nós, o que não aconteceria numa embos­cada. Oxalá haja luz suficiente para prepa­rar a po­sição. Se ca­lhar nem vai haver azar...
            De repente, ouve-se um rebentamento. Tiro­teio de todos os lados. O pessoal da frente estava cercado. A surpresa foi completa. A primeira viatu­ra, um dos tais blindados, caiu com as rodas da frente num enorme buraco ficando imobilizada e em má posição para fazer tiro. Mais rebentamentos. À medida que escurecia, distin­guiam-se os clarões produ­zidos pelos disparos das armas inimigas. Como de cos­tume nestas ocasiões, as metralhado­ras pesadas, de velhas que eram, encravavam a cada passo. Corridas desesperadas para os locais que pudes­sem dar o mínimo abrigo. Ordens grita­das que não che­gavam aos destinos. Rebentamen­tos e mais reben­tamen­tos. Um unimog desocupado apanhou com uma granada e ficou quase desfeito, em chamas. Os carregadores eram despejados de rajada e as muni­ções esgotavam-se. Um inferno.
            Já estava escuro quando o ti­ro­teio começou a diminuir. Só se ouviam alguns tiros do nosso lado. Depois, silêncio e medo.
            Reorganizar uma tropa, de noite, depois de um ataque em terreno desconhecido, não é obra fácil. Não se sabe ao certo quem é quem. Não se sabe se o inimigo retirou completamente, não se sabe uma data de coisas.
            Ouvia-se o gemer dos feri­dos. Parece que são poucos e sem grande gravi­dade, vá lá! Começaram a surgir boa­tos:
            — Faltam cinco homens...
            — Não sejas parvo, que não vai faltar nin­guém.
            — Parece-me que falta pelo menos um...
            — Amanhã vê-se, tem calma! Não me cha­tei­es!
            Durante a noite, quase às apalpade­las, a arti­lharia executou as missões de tiro pre­vistas. As ponta­rias eram feitas com os elementos de que se dispu­nha na altura mas, sem observação aérea, os efeitos nos objectivos eram duvidosos. Ordens são or­dens!
            Mais boatos:
            — Vi um tipo a ser levado pelos turras...
            — Não pode ser! Estás a ficar «apanhado do clima»!
            Ao amanhecer, conta-se o pessoal. Faltam qua­tro soldados. Faz-se uma batida na zona. Se­guem-se as pegadas dos turras. A poucos quilómetros, três cadáveres esquartejados. Passados dias, um soldado fala na rádio Konakry. Contra Portugal...
 
 Adaptado do livro de contos "Travessia" de Costa Monteiro


[1] General Spínola
publicado por Fernando Vouga às 16:21

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2 comentários:
De Luís Alves de Fraga a 22 de Abril de 2006 às 17:27
Está muito interessante esta ficção (realidade) ou esta realidade ficcionada. Só não gostei de uma única palavra... aquela da "avioneta". É como chamar tanque a um carro de combate ou barco a um navio de guerra. Na Força Aérea há aviões, helicópteros ou aeronaves... Desculpe lá, meu caro Costa Monteiro... coisas de quem farda de azul... sem ser marinheiro!
De Fernando Vouga a 22 de Abril de 2006 às 22:02
Tem razão, meu caro Fraga. Mas neste caso o "meio-ficcionista" colocou-se na pele de um mero observador ignorante destas coisas. Obrigado pelo comentário.

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