Quarta-feira, 31 de Maio de 2006

O segredo é a alma do negócio...

          Uma das actividades operacionais mais perigosas da guerra colonial eram as colunas auto pelas picadas do mato. A velocidade era muito lenta, o capim alto e a defesa difícil porque, em movimento, a observação é limitada e as pontarias muito incertas. Por outro lado, o inimigo, os “turras” como dizíamos, para além das emboscadas, colocava minas. Por essa razão, eram tomadas várias precauções. De madrugada, saía uma guarda avançada, mais conhecida por “picagem” com pessoal munido de uma espécie de chuço, para picarem o terreno a fim de detectarem esses terríveis engenhos explosivos.
          Era o que acontecia entre Nova Lamego e Piche (aqui estava destacado um pelotão do esquadrão). De cada uma destas localidades saía uma equipa de picagem que se encontravam a meio do caminho, junto à aldeia de Bentém, organizada em autodefesa pelas populações locais. Depois, aguardavam pela passagem das colunas, nas quais apanhavam boleia para os quartéis de origem. E foi aí que se passou um dos casos mais insólitos que me foi dado conhecer.
          Uma bela madrugada, saiu de Piche, em direcção a Nova Lamego, uma coluna escoltada por um pelotão de reconhecimento do Esquadrão. À chegada a Bentém deparou com a equipa de picagem atarefada a levantar minas da picada e das bermas. Entre minas anti carro e anti pessoal, se a memória não me falha, levantaram-se 25. E só aí o alferes comandante do pelotão percebeu a sorte que teve.
          Com efeito, a aldeia em questão acabara de sofrer durante a noite um ataque dos guerrilheiros, Como pertencia à zona de acção do Batalhão de Nova Lamego, saíram tropas dessa localidade em socorro dos atacados, pondo o inimigo em fuga. Tudo sem incidentes de maior.
          Porém, poucos dias atrás, ainda estava à responsabilidade do batalhão de Piche. Caso essa responsabilidade não tivesse sido mudada, o que teria acontecido era o socorro ter sido prestado pelo pelotão de reconhecimento. E, se o tivesse feito, teria sido um desastre. As viaturas teriam que seguir de noite pela picada, a toda a velocidade, sem esperar pela picagem e, claro, cairiam fatalmente nas minas. Mas havia mais: os soldados que saltassem das viaturas para se abrigarem do fogo inimigo saltariam para cima das minas anti pessoal colocadas nas bermas. Uma carnificina!
          É caso para dizer: ainda bem que os guerrilheiros não foram avisados da mudança da responsabilidade…
publicado por Fernando Vouga às 16:45

link do post | comentar | favorito
|

E.Rec.2640

pesquisar

 

Setembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

Notas recentes

Só pode ser piada

Para quem gosta de ler

A luta armada na Guiné

Para quem gosta de ler

Para quem gosta de ler

A guerra na Guiné

Foi há 48 anos...

Despesa que não morreu

10 de Junho

Mas que golpada!

Arquivos

Setembro 2016

Abril 2016

Janeiro 2016

Novembro 2015

Maio 2015

Abril 2014

Julho 2013

Junho 2013

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Fevereiro 2012

Maio 2010

Março 2010

Janeiro 2010

Outubro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Agosto 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Favoritos

Deixem os amigos em paz

Para onde vais, América?

Ligações

Visitas

conter12

E.Rec.2640

blogs SAPO

subscrever feeds