Quarta-feira, 7 de Junho de 2006

África e a História

           
Moçambique - Mulheres Macondes
1966
 
          Os primeiros europeus a chegar às costas africanas ao Sul do Sara foram os portugueses no século XVI. Ao desembarcarem pela primeira vez, depararam com povos estranhos e primitivos, como se África estivesse paralisada no tempo, adormecida e indiferente à evolução que se processava no mundo então conhecido. Com efeito, muitos dos povos africanos quase que viviam no começo da idade dos metais. Não conheciam nem a roda e nem o ferro. A despeito deste atraso, foi neste imenso continente que se encontraram as mais antigas ossadas humanas. Facto curioso que levou, e ainda leva, muitos cientistas a pensar que o primeiro homem é africano.
Hoje ainda pouco se sabe do que se passou durante os primeiros três ou quatro milhões de anos após o aparecimento do homem nestas paragens. A História conhecida apenas remonta aos primeiros séculos da nossa era. Época em que surgiram e desapareceram reinos e impérios, guerreiros e poderosos, como o do Gana, o dos Almorávidas, do Benim e do Monomotapa. Impérios e reinos esses, construídos à força das armas. Tal como noutras paragens, África era palco sangrento de imensos conflitos em que os povos se matavam por razões que nem sempre eram fáceis de compreender. Milénios de invasões, de atrocidades, de genocídios, de sofrimento, de glórias e de misérias. Milénios obscuros numa terra de extremos onde, nas regiões inóspitas, não compensava modificar a natureza e, nas férteis, a sua prodigalidade não exigia grande esforço e imaginação. Terra de fatalismos onde tudo dependia da vontade dos espíritos e dos seus feitiços e contra os quais não se podia lutar. O desenvolvimento fez-se assim ao ritmo pachorrento de uma natureza, por vezes pródiga, por vezes avara, mas sempre demasiado poderosa e omnipresente para ser alterada.
Os primeiros contactos com os europeus começaram com o estabelecimento de relações comerciais, das quais se destacava o tráfico de escravos. Estima-se em mais de dez milhões o número de africanos arrancados à força das suas terras para irem, na sua maioria, trabalhar no continente americano. Muitos nem sequer chegavam ao destino, porque acabavam por morrer em naufrágios ou dos maus tratos sofridos durante a viagem. Tráfico em que os próprios africanos não estavam inocentes, já que havia sempre quem se dispusesse a vender os seus semelhantes em troco de benefícios materiais.
Numa época em que consideravam a conquista e a submissão de outros povos (quantas vezes o extermínio) como um direito e até uma virtude, os europeus foram-se instalando ao longo da costa, em feitorias, como de terra conquistada se tratasse, para de seguida avançar mais e mais para o interior. Depois, no século XIX, o continente foi esquadrinhado de ponta a ponta por uma série de exploradores idealistas, românticos e aventureiros. Foi a época gloriosa de Livingstone, Stanley, Burton, Thomson e também dos portugueses Capelo e Ivens, entre outros. Descobriram riquezas fabulosas, que urgia explorar... Em nome do progresso, bem entendido.
Dessa forma, o velho mundo achou-se com o direito de ocupar todo o continente e assim partilhar as suas potencialidades. Em troca, proporcionava às populações os «benefícios» do contacto com uma civilização considerada superior. Havia que salvar da barbárie as populações selvagens. África precisava de ser administrada, o colonialismo era um imperativo moral...
Assinando tratados com uns, silenciando a tiro outros, entre 1880 e 1914 as potências europeias ocuparam quase toda a África. O continente foi retalhado em inúmeros territórios, para serem administrados e explorados pelos novos senhores. Sem serem consultadas, milhões de pessoas passaram a viver à sombra das bandeiras da velha Europa, a ter que aprender novas línguas, conhecer novos deuses, adquirir novos usos e costumes. Naturalmente, foi-lhes também dado a conhecer o trabalho duro e mal pago nas plantações, nas minas, nas fábricas, nos portos, nos trabalhos de construção de infra-estruturas necessárias ao desenvolvimento económico, na construção dos edifícios administrativos e, porque não, das casas sumptuosas dos seus senhores.
De 1914 a 1918 a Europa envolveu-se numa das guerras mais sangrentas da história da humanidade. O conflito alastrou a todo o mundo e também ao continente africano, onde brancos e negros verteram o seu sangue em proveito interesses pouco claros para o seu futuro. Assinado o armistício, o mapa de África foi reformulado. Em resultado do Tratado de Versalhes, os alemães perderam todas as suas colónias em favor das potências vencedoras. Foi assim que em 6 de Maio de 1919 uns milhões de africanos, até à data súbditos da Alemanha, foram repartidos, sem mais nem menos, entre a França e a Grã Bretanha!
Não será portanto de estranhar que, a despeito da sua natural fraqueza militar e de alguns benefícios que a civilização europeia acabava por lhes trazer, os povos africanos se tenham rebelado contra o jugo colonial. Foi uma luta persistente, desigual e quase sempre mal sucedida. Começou com a resistência ao tráfico de escravos por parte de povos mais aguerridos da África oriental, nomeadamente os Masai, e também de outros que se refugiaram em regiões centrais, onde hoje se situam o Ruanda e o Uganda, menos acessíveis aos traficantes. Com o andar dos tempos, surgiram movimentos organizados de povos guerreiros bem chefiados, como os Zulus, que fizeram tremer o poderio britânico na África austral. O melhor exemplo de resistência à ocupação foi dado, no entanto, pelos etíopes, que resistiram até 1936, data em que foram finalmente derrotados pelos italianos.
A despeito de ocorrerem algumas tentativas de melhorar a vida das populações locais e criar regimes mais justos, e dos benefícios do contacto com a civilização europeia, o desejo de libertação foi crescendo e tomando forma em todo o continente. Quando a exploração se tornava mais insuportável, a reacção era por vezes violenta. Em 1896 a Rodésia quase que caía nas mãos dos rebeldes. Em 1915, chegou a vez da Niassalândia, onde John Chilembwe, um pastor protestante educado nos EUA, quase que tomou conta do poder.
Em 1939 rebentou mais uma guerra na Europa que, mais uma vez, alastrou rapidamente a todo o mundo. Com o seu termo, o panorama internacional foi totalmente alterado. A velha Europa, exausta e desacreditada, foi a grande derrotada no conflito. Os verdadeiros vencedores foram os EUA e a URSS, que se tornaram superpotências e passaram a dominar a cena política mundial. Se por um lado a estratégia da primeira potência passava pelo isolamento da Europa cortando-lhe o acesso às riquezas africanas, a segunda, por outro lado, nunca viu com bons olhos as vantagens económicas que os europeus usufruíam das suas colónias. A Europa perdeu assim a hegemonia que tinha no contexto das nações e o seu o império colonial ficou fatalmente condenado. Os movimentos de libertação africanos começaram a receber apoios, cada vez menos discretos da URSS e dos EUA e outras potências e, uma a uma, as colónias europeias foram caindo. Em 1975, Portugal, último bastião do colonialismo, concedeu a independência a todos os territórios sob a sua administração, depois de uma anacrónica guerra de treze anos. Em consequência, os regimes minoritários brancos da Rodésia e da África do Sul ficaram isolados e, portanto, condenados. A mudança do poder para as maiorias africanas foi uma questão de tempo. Hoje, pode dizer-se que toda a África pertence aos africanos, que toda a África está, finalmente, libertada.
Contrariamente ao que seria de esperar, a liberdade não trouxe, de imediato, nem a paz nem a prosperidade aos povos africanos. Hoje pode dizer-se que, à excepção de alguns países, África está ingovernável. Não há administração, não há autoridade, não há economia, não há saúde, não há educação, não há nada. Praticamente todo o continente vive numa crise profunda, para o qual não se vislumbra nenhuma saída. África é a terra da fome, da guerra e da doença e da morte.
Poder-se-á argumentar que a crise se deve muito às rivalidades tribais, à corrupção e incapacidade dos dirigentes políticos, caso de Idi Amin, Bokassa, Mobutu e outros. Em parte é verdade. Mas não nos podemos esquecer que o mapa político de África pouco ou nada tem a ver com a sua História. Quase todos os países que hoje lá existem são o resultado de condicionamentos exclusivamente europeus. A divisão do território teve por objectivo satisfazer a avidez das potências europeias e não os interesses das populações ou a formação de novos países. Temos que reconhecer que, do século XVI a meados do século XX, na prática, a História que funcionou em África foi a europeia e não a africana.
O resultado está à vista. Foram deixados quinze países sem saída para o mar, outros são perfeitamente inviáveis e muitos ascenderam à independência muito antes de estarem preparados para a autodeterminação. Quase todos, quando libertados, foram vítimas da guerra civil, resultante da luta pela hegemonia que entretanto as duas superpotências travavam entre si. De um modo geral, as fronteiras nada têm a ver com a distribuição étnica das populações ou dos recursos económicos. Em vários países juntaram-se etnias rivais, noutros dividiram-se os mesmos povos por várias nacionalidades. É o caso dos Fulas que se espalham numa área imensa que começa no Senegal e se estende pela Guiné, Mali, Nigéria, Chade até ao Sudão oriental. É o caso dos antigos congoleses que agora se dividem por Angola, Congo e Zaire. Isto só para citar dois exemplos.
No Século XVI, quando começou a ocupação europeia, os africanos estavam a construir a sua História, bem ou mal, mas à maneira deles, de arco e flecha. Hoje, o que parece que está a acontecer, é o regresso de África às suas origens. À semelhança do que se passa na ex-Jugoslávia, em plena Europa, os africanos aproveitaram a liberdade para retomaram o curso da sua própria História. O drama é que em vez de utilizarem as velhas armas gentílicas, estão a matar-se com aviões, artilharia, mísseis, tanques, minas e metralhadoras. Estranhamente, e a despeito da extrema penúria em que hoje vivem, os africanos podem não ter feijões, mandioca e peixe seco para matar a fome. Mas as armas, que eles não fabricam e nem parece que necessitam delas assim tanto, continuam a serem fornecidas em abundância.
 
 
Publicado por Costa Monteiro no Diário de Notícias da Madeira em Novembro de 1996
 
 
 
publicado por Fernando Vouga às 22:06

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