Sábado, 17 de Junho de 2006

Para a Bósnia mas não à força

          O texto que se segue foi publicado pelo autor deste blog no Diário de Notícias da Madeira em 25 de Janeiro de 1996. Na altura, Portugal enviou os primeiros contingentes militares para a Bósnia.
          Não deixa de ser curiosa a diferença de tratamento dado aos soldados de então e o que foi dado aos que durante treze anos foram mobilizados para a guerra colonial.
          O título foi inspirado na célebre frase de Salazar : "Para Angola e em força".
 
         As Portuguesas e os Portugueses podem respirar de alívio. Os sol­dados que vão para a Bósnia são todos voluntários. Segundo o que foi noticiado há alguns dias, apenas alguns militares dos quadros permanen­tes (não combatentes do serviço de Saúde, mas voluntários para o Exérci­to) é que foram obrigados a integrar as forças expedicionárias. Quebrou-se assim uma tradição militar em que o recrutamento de pessoal para a guerra era feito à custa do serviço militar obrigatório (SMO). Hoje, até os mais altos responsáveis militares, para descanso de todos, não se cansam de salientar que ninguém vai contrariado, que as condições a que os soldados vão ser sujeitos são as melhores possíveis, que os peri­gos são poucos. Apenas umas minas, frio, itinerários difíceis e um ou ou­tro atirador furtivo. Mais ainda, o voluntariado é de tal modo respeitado que, a dias do embarque, uma dezena e tal de soldados levantou pro­blemas e foi desmobilizada.
         Não foi assim na primeira guerra mundial, não foi assim na guerra colonial, isto para falar só dos tempos mais recentes. Nessas guerras, milhares de soldados, mal inspeccionados, mal preparados, mal equipa­dos e pouco mentalizados, tiveram que embarcar, quantas vezes em po­rões infectos de navios superlotados, para defenderem, lá longe, os inte­resses duma Pátria que na maioria dos casos nem sequer os ensinou a ler. Esses soldados, nas trincheiras da Flandres e nos sertões africanos padeceram, estóica e generosamente, os maiores sacrifícios, os maiores perigos e as maiores privações. E portaram-se bem.
         Hoje as coisas são bem diferentes. Estamos a enviar para a Bósnia um contingente pequeno, mas de qualidade. Nada falta aos nossos rapa­zes. Vestem as melhores fardas que alguma vez os militares portugueses vestiram, estão bem armados e treinados, estão altamente motivados, são bem pagos e dispõem de um apoio logístico nunca dantes visto.
         Embora a legislação existente não impeça de mandar para a guerra militares não voluntários, é fácil de entender que, com o precedente agora criado, passe a ser muito difícil no futuro obrigar seja quem for a combater contra a vontade. Para mais, o serviço efectivo normal foi redu­zido para quatro meses, tempo já de si insuficiente para ministrar uma instrução aceitável. Mobilizar militares desta proveniência obrigaria a um prolongamento demasiado da prestação do serviço e, como só tocaria a uma minoria, corresponderia a uma descriminação difícil de superar. É fácil de prever que tal medida seria alvo de uma forte contestação, com consequências que os políticos no poder não desejariam com certeza enfrentar.
         Com as reformas de Fernando Nogueira, a despeito das restrições constitucionais ainda existentes, o Exército caminha decididamente para o profissionalismo. Embora esta medida possa agradar muito às classes mais favorecidas (que não se importam de pagar aos menos favorecidos para as defenderem) os exércitos profissionais são caros, bons para pa­radas e demonstrações, para cenas de pancadaria à porta dos bares, mas são normalmente reticentes em dar o corpo ao manifesto quando chega a hora da verdade. A menos que sejam apoiados por uma má­quina generosa em apoio logístico e de fogos. Basta lembrar o que se passou na Guerra do Golfo em 1991 com as forças aliadas, onde predo­minava o profissionalismo. Foi necessário lançar, durante dias a fio, milha­res e milhares de toneladas de bombas sobre as forças Iraquianas para as incapacitar, antes do avanço das tropas de terra. 
         Não podemos admitir que Portugal, ao enviar tropas para a Bósnia, o faça por leviandade. O emprego de forças armadas, qualquer que seja o preço e o risco, justifica-se quando estejam em causa interesses vitais ou extremamente importantes para o país. Sendo assim, temos que partir do princípio que vamos para a Bósnia porque não temos outra alternativa e que o contrário nos traria prejuízos inaceitáveis.
         Desta feita, a nata do Exército Português da era pós Nogueira repousa, qual Inês de Castro no seu «engano de alma ledo e cego», quase exclu­sivamente no voluntariado, já que a operacionalidade dos militares do SMO tem pouca credibilidade. Quer isto dizer que, interesses nacionais da maior importância, dependem da boa vontade de umas centenas de jovens que, em princípio, não serão os mais instruídos nem os mais aptos a entender valores morais.
         Não é necessário ser-se pessimista para perceber que ninguém pode ga­rantir que a situação na Bósnia não venha a degradar-se e a guer­ra passe a ser, mais uma vez, um vazadouro de dinheiro e um manancial de mor­tos e estropeados. Será então legítimo perguntar se continuará a haver, nessas condições, voluntários suficientes, mesmo que pagos a peso de ouro. Caso contrário, como é que Portugal irá continuar a «honrar os seus compromissos internacionais»?
         Não é altura de ter saudades do exército do passado, o exército dos conscritos, da tropa «fandanga» como se costumava dizer. Re­corde­mos porém que foi ela que desfilou vitoriosa debaixo do arco de tri­unfo de Paris em 1918 e não foi operacionalmente derrotada pelas guerri­lhas afri­canas, a despeito de treze anos de guerra desgastante. Mas é altura de inter­rogar se o exército de hoje, a tropa de luxo, não passará de um ídolo com cabeça de ouro, mas com pés de barro.
 
Costa Monteiro
publicado por Fernando Vouga às 21:55

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1 comentário:
De Luís Alves de Fraga a 8 de Julho de 2006 às 15:22
Actualidade: 100% Só tenho a acrescentar mais uma realidade que todos conhecemos: estes contratados são um «perigo»... servem-se do serviço, mas não servem o serviço!

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