Quinta-feira, 14 de Abril de 2016

Para quem gosta de ler

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Na palidez do amanhecer, a brisa aviva os carvões das fogueiras e abate-lhes o fumo espesso, que rasteja entre as pessoas e as coisas, ocultando-lhes o contacto com a terra. Tudo flutua estranhamente, numa atmosfera irreal que mais afasta a consciência do quadro que quase recusa a admitir. Os tições em brasa são a única pontuação no cinzento geral da manhã.


Daniel Gouveia – “Cartas do Mato”

    É com uma prosa desta qualidade, que Daniel Gouveia nos dá de presente o seu segundo livro “africano”, que nos transporta, mais uma vez, ao âmago da Guerra Colonial (o primeiro livro intitula-se “Arcanjos e Bons Demónios”).
    Poder-se-á dizer que é mais um livro a falar dessa guerra. Mas o que já não se poderá dizer, é que seja um livro a mais.
    Com efeito, uma guerra sofrida durante treze anos, espalhada pelos territórios imensos das antigas colónias de África, na qual participou mais de um milhão de seres humanos (contando com os guerrilheiros), terá fatalmente muito para contar de ambos os lados. Todavia, por mais que se conte, muito mais ficará por dizer. Haverá sempre, portanto, este ou aquele aspecto que vale a pena referir e que não pode cair no esquecimento.
    Foi sobretudo uma guerra de desgaste, travada quase sempre em regiões longínquas e estranhas, onde os nossos combatentes enfrentaram, para lá do inimigo, grandes dificuldades em suportar os efeitos de um clima quase sempre tórrido e desgastante. Guerra traiçoeira, de contornos pouco claros e com grandes variações de intensidade. Intensidade esta que variava de local para local, de dia para dia e, digamos mesmo, de pessoa para pessoa. E uns tornaram-se mais homens enquanto outros se tornaram mais bichos...
    Mais do que a descrição das "aventuras" militares vividas intensamente pelo então alferes Gouveia, temos nesta obra toda a vivência de um cidadão que, não fugindo aos perigos e horrores da guerra, nem por isso deixou de ser quem era: alguém com grande sensibilidade e bom senso; alguém que soube manter, ao mesmo tempo, uma grande serenidade e senso crítico.

publicado por Fernando Vouga às 18:32

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