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NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

O primeiro ataque a Bafatá

 

          Cerca das 23H20 do dia 26 de Junho de 1971, um grupo inimigo atacou BAFATÁ durante cerca de 5 a 10 minutos. Parte do seu efectivo visou directamente o aquartelamento do ERec. 2640. As nossas tropas reagiram pelo fogo e pela manobra. Não houve consequências para as mesmas. No entanto, a população civil sofreu 4 feridos ligeiros e foram queimadas 11 habitações (palhotas) de um bairro da periferia.
 
“História do Esquadrão de Reconhecimento 2640”, Cap. II, Pag. 52
(com algumas correcções meramente editoriais)
 
 
          O General Spínola desceu do helicóptero com cara de poucos amigos. Ao contrário do costume, não envergava o camuflado. Apresentou-se de farda verde, de gravata e com o blusão de lã vestido, embora o calor de Junho fosse sufocante. Na cabeça, a boina preta, monóculo no olho direito e uma varinha na mão. Depois de um cumprimento de circunstância aos oficiais que o aguardavam na placa da pista de aviação, dirigiu-se de imediato para a sala de reuniões.
          Militarmente pouco relevante, este ataque revestiu-se de uma grande importância psicológica e política. Era o primeiro ataque ao âmago do “Chão” Fula, e punha a nu a fragilidade da sua segurança, resultante do abandono da região do Boé, a Sul do rio Corubal. Abandono este decidido pelo próprio Spínola e que foi alvo de críticas, tanto de políticos como de militares.
          Assim, o general, que sempre revelara uma certa dificuldade em reconhecer os seus erros, não se demorou em encetar um ataque cerrado ao comandante da defesa de Bafatá, um tenente-coronel que comandava o Batalhão local. O ambiente era pesado e irrespirável, as portas e janelas foram fechadas e todos, menos Spínola, que continuava agasalhado, transpiravam copiosamente. De palavra pronta e acutilante, desferia golpes sobre golpes no pobre homem. A intenção era clara: descobrir uma falha que lhe permitisse transferir as culpas para o seu subordinado.
          Mas não foi fácil. O tenente-coronel, sem o fazer com frontalidade, procurava insinuar que não tinha flexibilidade para alterar o dispositivo de defesa, imposto pelos escalões superiores. Que, nesses termos, era impossível suster as infiltrações dos guerrilheiros. Ou seja, que a responsabilidade do desaire caberia, em última análise, ao próprio Spínola.
          Mas este retorquiu que era altura para decisões rápidas. Que a obrigação do comandante da defesa era fazer as alterações que achasse necessárias, sem delongas, e que pedisse autorização depois. Abro aqui um parêntesis para esclarecer que, com Spínola, era impensável tomar tais iniciativas porque, em caso de fracasso as consequências seriam devastadoras para o futuro da carreira. E, a finalizar a sua argumentação, o general acrescentou: «O senhor, em vez de dominar a situação, está a ser dominado por ela. Temos que ser inteligentes!»
          E foi aí que o tenente-coronel, já em pânico, cometeu um erro fatal. Tentando desesperadamente demonstrar que não lhe faltaria inteligência, respondeu: «Eu fui professor de Geometria Descritiva na Academia Militar.»
          A resposta fulminante e demolidora de Spínola não se fez esperar: «Vê-se bem que não foi professor de discernimento nem de bom senso.»
          E, com esta tirada, o Governador da Guiné saiu vitorioso. Acabara de conseguir mais um bode expiatório para imolar no altar das suas glórias…

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