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QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

No rescaldo do "Prós & Contras"

Joaquim Mousinho de Albuquerque

 

          Parece-me errado considerar a condição militar como um estatuto sem o qual os militares deixariam de se comportar como tal. Não foi decerto por imposição da condição militar, enquanto estatuto, que Joaquim Mousinho de Albuquerque levou a cabo as façanhas gloriosas que o imortalizaram. Por outro lado, recordemos, esse estatuto não impediu que um grande número de oficiais de carreira abandonasse cobardemente os seus soldados nas trincheiras da guerra de 14-18.
          Quero com isto dizer que a condição militar não se cria por decreto. É algo interior, generoso e intrínseco de quem escolheu a carreira das Armas. Em boa verdade, na sua essência, vejo-a como um estado de espírito. Por isso, como estado de espírito que deverá ser, a condição militar não é negociável. Não pode ser moeda de troca. Caso contrário deixaria de ser generosa.
          Ou se é militar ou não, não há meio-termo. Nu ou de casaca, de camuflado ou de grande uniforme, no activo ou reformado, sindicalizado ou não, o militar é sempre militar. E é bom que não se perca de vista que hoje só vai para as Forças armadas quem quer. E, ao alistar-se, o cidadão aceita automaticamente que, em tempo de guerra (ao empregar o termo “guerra” estou aqui a incluir outras situações excepcionais definidas pela Lei), a sua condição socioprofissional pode ser sujeita a fortes restrições.
          Porém, os Governos, hoje democraticamente eleitos, têm toda a legitimidade para estabelecer o estatuto socioprofissional dos militares. E se acham que o mais conveniente para a Nação é equipará-los a civis, tudo bem, estão no seu direito. O que não podem é confundir a condição militar com o estatuto socioprofissional. São, no meu entendimento, duas realidades distintas. Não podem aplicar as restrições de uma condição militar que existe por causa da guerra, em tempo de paz. Ou seja, os Governos ao optarem pelo modelo “civilista”, digamos assim, terão que levar as suas opções até às últimas consequências. E os militares terão, nessa base, todo o direito de se associarem, serem pagos pelas horas extraordinárias, etc. E, enquanto tal não lhes for garantido, não terão outro remédio que não seja enveredarem por formas de luta à revelia dos regulamentos.
          Há portanto que separar as águas. Dentro deste critério, às chefias castrenses, libertas dos problemas relacionados com os interesses do seu pessoal, competirá, além de outras responsabilidades inerentes ao seu escalão hierárquico, a formação dos militares e fazê-los compreender e aceitar a condição militar. E serem intransigentes na sua aplicação em tempo de guerra. Aos militares, enquanto cidadãos de pleno direito, e em tempo de paz, competira lutarem pelos seus direitos. E cada uma das partes deverá abster-se de interferir nas competências da outra.
          Claro que é muito mais fácil para os Comandos e Chefias militares gerirem o seu pessoal num ambiente de intimidação e silenciamento. Mas vai sendo altura de se adaptarem às novas realidades e exercerem o seu mister de uma forma muito mais digna e responsável. Exercer a sua acção pelo exemplo, motivação e responsabilidade, encorajando a frontalidade e o diálogo. Não podem escudar-se em raciocínios bizantinos do género de que “vão ocorrer greves em operações de combate”. Os militares são, no mínimo, tão responsáveis como os restantes Portugueses e estou certo de que saberão comportar-se à altura das situações, por mais perigosas que sejam.
          Para finalizar, é muito conveniente que todos percebam que, ao usar-se o medo como solução para o exercício do comando, estão a criar-se umas Forças Armadas guarnecidas por medrosos. Que, evidentemente, não servirão para nada. Melhor dizendo, só servirão para gastar dinheiro.
 

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