Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

Arrumar a casa

   

 

       Mesmo admitindo que as Forças Armadas estão isentas de favoritismos, compadrios, partidarismos e outros factores que poluem a ascensão nas carreiras dos militares, a promoção ao generalato, nomeadamente a Tenente-General, é inevitavelmente influenciada por variados factores conjunturais. Por exemplo, um oficial de elevado mérito e capacidade pode não passar de coronel porque, tendo o azar de fazer parte de um lote excepcional, simplesmente não teve vaga para a promoção. E o contrário também pode acontecer. O que explica, por vezes, serem promovidos verdadeiros lázaros (peço desde já perdão a quem servir esta carapuça pela linguagem algo desabrida que acabei de empregar). Em suma, um general não se poderá ofender se alguém lhe disser que teve muita sorte.
          Nesta ordem de ideias, quem chegar a oficial general, tem toda a legitimidade para se orgulhar. Mas não me parece que tal possa ser motivo para se ser arrogante. Pelo contrário. Terá, sobretudo, uma grande motivação para se dedicar ao seu trabalho e às suas altas responsabilidades com entusiasmo, generosidade e dedicação. E também com a humildade necessária para ultrapassar pruridos hierárquicos, quase sempre fruto de uma mentalidade ultrapassada em que a antiguidade é considerada um posto.
          Vem este arrazoado a propósito do pedido de passagem à reserva de quatro Tenentes-Generais da Força Aérea por se terem sentido ultrapassados por um oficial da mesma patente, mas mais moderno, que foi nomeado para Chefe de Estado-Maior do Ramo.
          Esses Generais estão no seu direito, embora não tivesse ocorrido nenhuma ilegalidade. Mas penso que não foram brilhantes na sua decisão de abandonarem as responsabilidades que voluntariamente aceitaram. À partida, ao serem promovidos, sabiam perfeitamente que a escolha do Chefe de Estado-Maior não recai obrigatoriamente no mais antigo. E mais, tendo sido formalmente informados por quem de direito e no local próprio do que iria suceder, não colocaram na altura qualquer objecção.
          Infelizmente o mal não é de agora. Os militares, e em especial os de mais alta patente, têm-se mostrado demasiado preocupados com o seu umbigo, em detrimento das suas responsabilidades, mormente no tocante à imagem das Forças Armadas perante o poder político. Estou a lembrar-me dos generais Delgado e Spínola, apoiantes incondicionais da ditadura salazarista, que se rebelaram contra o regime por lhes serem negados os cargos que ambicionavam. Estou a lembrar-me do caso recente da valentia serôdia do Almirante CEMGFA com a carta que enviou ao Ministro da Defesa em apoio dos seus subordinados. E não será preciso vasculhar muito na História recente para encontrar mais casos semelhantes.
          Não será, portanto, necessário ser-se muito perspicaz para se perceber que a classe política tem muitas razões para desconfiar dos militares. Penso que, nestes tempos difíceis que os militares atravessam, todos nós devemos fazer um exame de consciência. Porque os nossos Generais são um produto das Forças Armadas que temos. Talvez sejam o resultado de uma mentalidade demasiado militarista que não se coadunará com uma sociedade verdadeiramente moderna e democrática. Pelas razões apresentadas e eventualmente por outras de que não trata esta nota, teremos também algumas culpas pelo que nos está a acontecer.
          Por tudo o que ficou aqui dito e, obviamente, pelo muito que ficou por dizer, sou de opinião de que vai sendo altura de arrumar a casa. E só depois é que se poderão fazer as devidas exigências a quem nos governa.
 
 

4 comentários

Comentar post