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QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

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NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

Memórias do ERec 2640

 

          Uma barata! Não pode ser! Quase que vomitei o almoço. Os alferes não se contiveram e riram-se na minha cara. Uma vergonha. Mas tinham razão.
          Tudo começou a meio de uma manhã cálida e chuvosa. Um dos soldados de guarda à porta de Armas do Esquadrão trouxe à minha presença um negro que transportava com todo o cuidado um pequeno embrulho. Que o senhor doutor mandava este presente para nosso capitão. Rasguei curioso o papel e vi dentro um boião cheio de achar de manga verde. Rodei a tampa e o cheiro era delicioso.
          Já sei o que foi. Dias antes estivera a conversar com Dr. Sarcadandó, o delegado de saúde de Bafatá. Um goês gorducho e bonacheirão a quem falei de um caril que há cerca de dois anos comera em Moçambique em casa de um casal inglês, ambos nascidos na Índia durante o domínio britânico. A mulher do Dr., elegante no seu sari, parecia embevecida a ouvir-me falar das delícias da cozinha indiana. E em especial dos “achares” de manga verde e de limão. Recordei com saudades aqueles sabores, todos de especiarias feitos que, por si só, transformam o mais simples arroz branco numa iguaria de se lhe tirar o chapéu. E não só, porque o picante, de forte que era, fazia sair fumo pelos ouvidos…
          Às refeições dos dias que se seguiram à oferta, sempre que vinha a “vianda”, assim se designava o arroz na Guiné, eu abria o boião e espalhava um pouco do tal achar de manga. Insisti com os alferes para provarem aquela delícia. Mas desistiram à primeira dentada. Sabor estranho e demasiado picante. Mais deixam, disse eu despeitado. E daí para diante servia-me sem cerimónia, não me coibindo de fazer troça dos meus acompanhantes de refeição. Pobres ignorantes que não sabiam o que estavam a perder…
          Gozo efémero o meu! Porque, dias depois foi a minha desgraça. A meio do boião e misturada com os bocados de manga, apareceu o cadáver já despernado de uma barata. E enorme, como são as baratas da Guiné!
 

2 comentários

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    Fernando Vouga 03.01.2007 17:08

    Cara amiga

    Visitei o seu blog e gostei.
    Tenho algumas respostas na manga.
    Mas não consigo comentar.
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