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QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

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NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

O tiro de Luanda

 

          Luanda, nos finais de 1974 era uma cidade a ferro e fogo. Na sequência da Revolução de Abril, as autoridades Portuguesas autorizaram a instalação das delegações dos diferentes partidos independentistas. O MPLA, a FNLA e a UNITA., devidamente instalados com armas e bagagens, mas sobretudo com armas, lançaram-se numa luta desesperada pela conquista do poder. Quase de um dia para outro, uma cidade pacífica transformou-se num inferno.
          Em virtude de a situação estar à beira do descontrolo total, as autoridades portuguesas resolveram reforçar o dispositivo de ordem pública com umas quantas unidades operacionais vindas do interior e que ainda estivessem suficientemente disciplinadas. Foi o caso do meu Batalhão que, sem esperarmos, foi deslocado para a capital Angolana.
          Para uma tropa que durante um ano estivera isolada no mato em condições precárias, a ida para essa bela cidade cheirava já a fim de guerra. Com efeito, as ruas e amplas avenidas continuavam pejadas de carros, os cafés e restaurantes a abarrotar de clientes, os cinemas a funcionar em pleno. Mas cedo os soldados começaram a ter saudades do tempo em que combatiam os guerrilheiros nas montanhas e matas dos Dembos. Aí sabia-se onde se acoitava o inimigo, já de si tremendamente desgastado e quase inoperacional. As operações eram demoradas e cansativas, é certo, mas ao menos sabia-se com o que se contava. Em caso de dúvida, falavam as espingardas, as bazucas e os morteiros e o caso resolvia-se em pouco tempo.
          Em Luanda tudo era diferente. Os soldados, transformados à pressa em polícias, viram-se a fazer uma guerra estranha para a qual não foram minimamente preparados. Por detrás de um ambiente onde a vida parecia decorrer com normalidade, escondiam-se inúmeros perigos e situações bem difíceis de resolver. Com a agravante de as armas só poderem ser usadas com imensas cautelas, dado que poderiam atingir alvos errados e transformar pequenos incidentes em tragédias de dimensões imprevisíveis, com implicações ao nível internacional.
          Mas esses movimentos de guerrilha mostraram-se pouco preparados para manter a ordem. Talvez por terem sido apanhados de surpresa com a revolução portuguesa e o consequente fim da guerra. Demasiados individualistas e pouco disciplinados, cada um fazia a guerra por sua conta e a autoridade que exerciam sobre os seus combatentes deixava muito a desejar.
          Se no centro da cidade a vida decorria dentro de uma segurança aparente, nos arredores, onde viviam em imensos musseques largos milhares de angolanos negros, e onde as autoridades tinham enorme dificuldade em actuar, tudo se complicava. Roubos, assaltos à mão armada, tráfico de droga e diamantes, ataques à bomba, tumultos, manifestações, fogo posto, tiroteios, passaram a ocorrer com uma frequência avassaladora. Os próprios movimentos de libertação guerreavam-se sem dó nem piedade.
          No posto de comando do Batalhão, instalado no quartel do Regimento de Infantaria 20, choviam telefonemas a toda a hora, dia e noite, domingos e feriados. E as patrulhas não tinham mãos a medir. O descanso era pouco e os nervos andavam à flor da pele.
          E foi nesse ambiente alucinante que um dia, eu próprio, ao atender uma chamada do Quartel-general, recebi de um alferes a seguinte comunicação:
          — Meu capitão, deram um tiro no aeroporto.
          Fiquei possesso. Esperava tudo menos receber um telefonema daqueles. Apeteceu-me dar um raspanete ao jovem oficial por causa do tempo que me fez perder e desligar-lhe o telefone na cara. No meio daquele tiroteio todo, tiro a mais, tiro a menos, não fazia qualquer diferença. Mas, de repente, cheguei à conclusão que, para uma mensagem estúpida, só uma pergunta estúpida para o desconcertar:
          — Ó senhor alferes, o tiro ainda lá está?