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QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

Mais uma história da Academia

 

 

            Esta pequena história passou-se numa das paradas do quartel de Gomes Freire, no meu ano de finalista.
            Como se sabe, naqueles tempos as botas altas eram obrigatórias para todos os oficiais, mesmo que não fossem cavaleiros. O que, obviamente, era extensivo aos cadetes da Academia. Botas essas que eram quase um símbolo do oficialato. As praças usavam botas até aos tornozelos, os sargentos até ao meio da perna e os oficiais até ao joelho. Como complemento dessa peça do uniforme, era obrigatório ter calçadas as respectivas esporas.
            Porém, numa casa onde o respeito pelo plano de uniformes era levado até ao exagero obstinado, no que respeita às esporas a confusão era total. Tudo porque alguns cadetes, especialmente os do curso de Cavalaria, em vez dos esporins (sem roseta e fornecidos pela Academia), usavam esporas verdadeiras com roseta e tudo. O que, para os oficiais instrutores, era uma manifesta quebra de disciplina.
            Assim, numa bela tarde de verão, perante a formatura geral dos cadetes, o  comandante do Corpo de Alunos, de viva voz, deu a seguinte directiva:
            — Verifiquei que, dentre os senhores cadetes, uns andam com esporas e outros com esporins. Ora isso não pode ser. Pelo que, a partir de hoje, para ficar tudo igual, quem tem esporins compra esporas e quem tem esporas compra esporins.
 

 

Memórias remotas da Academia Militar

 

 

 

Treino para uma "reprise" de obstáculos a apresentar num juramento de Bandeira

Foto de Apolónio (11x18)

 

            Nos meus tempos de aluno da Academia Militar — já perdi a conta aos anos que se passaram — desempenhava a função de fotógrafo desse estabelecimento de ensino um sujeito algo estranho que dava pelo nome de Apolónio. Sempre agarrado à sua Rolleiflex de duas objectivas, esta personagem omnipresente em todos os acontecimentos importantes (e fora deles), não se poupava a esforços para fotografar tudo e todos. Nas cerimónias, nas aulas, nos exercícios de campo, nas paradas ou no lazer, lá andava aquele homenzinho de pele morena e magras carnes a disparar a câmara qual metralhadora pronta a dizimar exércitos inimigos. Segundo julgo saber, tais fotografias eram destinadas a encher um álbum, decerto imenso, destinado a documentar pela imagem todas as actividades escolares.
            De pasmar, era a sua memória, verdadeiramente elefantina, já que sabia de cor os nomes e números de todos os alunos, mesmo daqueles que há muito deixaram a Academia. Porém, o homem era tremendamente surdo. De tal forma, que a sua fala já era muito deficiente e difícil de perceber embora, para obviar a deficiência, usasse um aparelho auditivo
            Depois das reportagens, este incansável repórter de imagem a preto e branco vendia cópias aos alunos que desejassem. Para tal, inscreviam-se e, passados dias, as ditas eram entregues em mão a quem as tivesse solicitado, sendo o custo descontado no soldo. Eram momentos de grande confusão em que o pobre homem se via atafulhado de cadetes à sua roda, todos com pressa, por causa das aulas — as faltas de pontualidade eram motivo para acções disciplinares —. Quase sempre a confusão era enorme, pelo que, para manter a cabeça fria, desligava o aparelho para assim ter algum descanso e, paulatinamente, fazer as entregas.
            No entanto, os alunos aperceberam-se do truque e, como seria de esperar, nem sempre usavam a linguagem mais correcta na sua presença. Até que, um belo dia, um aluno, certo de que não estava a ser ouvido, perguntou-lhe:
            — Ó Apolónio, como é que está a tua mulher?
            Sem perder a compostura, mas com um ar muito sério e respeitoso, o fotógrafo respondeu:
            — Ó senhor cadete, eu tenho o aparelho ligado…