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QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

Foi há 48 anos...

 

 

 

 

     Com a devida vénia, publico aqui um texto de Manuel Malha extraído do seu blogue "Gazeta do Middlesex" (www.manuel2.com).

     O seu autor foi alferes miliciano da Companhia de cavalaria 1510, unidade que tive a honra de comandar em Moçambique de 1966 a 1968.

 

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  Looking  South





 

I felt age within me. Distance.

The futility of wandering. Torpor.

I looked back setting my bundle down.

I looked back not knowing where to set my foot.

Serpents appeared on my path,

spiders, field mice, baby vultures.

They were neither good nor evil now--every living thing

was simply creeping or hopping along in the mass panic.

I looked back in desolation.

In shame because we had stolen away.

Wanting to cry out, to go home.

 

 

Wislawa Szymbroska

 

 

 

O comboio especial deixou-nos naquela madrugada de Janeiro em Stª Apolónia onde os camiões militares esperavam para nos levar ao cais. No meio da multidão o pequeno grupo dos meus que se tinham vindo despedir do filho e neto único. Breves momentos para os derradeiros beijos e abraços. O meu avô, velho militar ainda aprumado nos seus oitenta anos, tinha posto ao peito as medalhas ganhas na Flandres. Dirijo-me a ele para a despedida final quando, com os olhos marejados de lágrimas, num impulso súbito se perfila e me faz a continencia. Vacilo , é demais, tenho medo de não aguentar e resolutamente volto as costas e regresso à formatura.

 

Senhoras do Movimento Nacional Feminino oferecem tabaco e imagens de santos. Recuso. Começa o desfile no meio das mais indescritíveis cenas de dor. Gritos e choros, um cenário dantesco mas felizmente curto ; em poucos minutos o Vera Cruz ter-nos-á engolido a todos. Depois é a corrida para as amuradas, pequenas para os três mil homens que partem. A sirene do navio soa, soltam-se as amarras, a banda militar no cais toca o hino nacional que mal se ouve no meio da gritaria. Desesperadamente procuro a minha família . Vejo finalmente a cara de minha Mãe, muito branca, no meio da multidão. Será esta a última imagem que levo comigo.

 

Começa a longa viagem e em breve a juventude , la ensouciante jeunesse, toma conta de nós. Tudo é novidade e , privilégios de classe, viajamos em primeira . Pode ser um transporte de tropas, mas mesmo assim é servido diariamente um chá com orquestra, (obviamente não dançante...), a mesma que acompanha os nossos jantares.

 

Luanda é a primeira escala e o primeiro contacto com África, dois dias apenas, demasiado pouco para o que queríamos ver. Em breve voltamos a navegar e dobrado o cabo da Boa Esperança Lourenço Marques espera-nos. É organizado um desfile militar pois somos o primeiro grande contingente de tropas a chegar à província e somos recebidos com indiferença, ou mesmo hostilidade, pela população branca. Parece que a guerra tão distante lá no Norte, apenas a nós diz respeito.

 

Nas próximas escalas o navio começará a regurgitar soldados, primeiro a Beira depois Nacala, Porto Amélia. Seremos os últimos a desembarcar em Mocimboa da Praia, em lanchas protegidos por fuzileiros e armados com Mausers, as armas automáticas virão mais tarde. A picada até Mueda é longa, cada metro uma angustia, é o primeiro contacto com o que nos espera. Verei indiziveis horrores, serei testemunha de indescritíveis sofrimentos. O hospital militar de Nampula convenientemente escondido no mato dos arredores. A esburacada picada que vem do aeroporto e que as ambulâncias carregadas de feridos percorrem lentamente entre gritos de dor.

 

 

 

 

Caminho lentamente até à beira mar nesta praia de seixos de Dorset. Está muito frio e sinto o gelo estalar sob os meus pés. Mar cinzento, céu de chumbo. Estremeço e olho para Sul. Pátria amada afinal não terás mesmo os meus ossos.

 

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Fotografia de Fernando Vouga - Janeiro de 1966