Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

Memórias remotas da Academia Militar

 

 

 

Treino para uma "reprise" de obstáculos a apresentar num juramento de Bandeira

Foto de Apolónio (11x18)

 

            Nos meus tempos de aluno da Academia Militar — já perdi a conta aos anos que se passaram — desempenhava a função de fotógrafo desse estabelecimento de ensino um sujeito algo estranho que dava pelo nome de Apolónio. Sempre agarrado à sua Rolleiflex de duas objectivas, esta personagem omnipresente em todos os acontecimentos importantes (e fora deles), não se poupava a esforços para fotografar tudo e todos. Nas cerimónias, nas aulas, nos exercícios de campo, nas paradas ou no lazer, lá andava aquele homenzinho de pele morena e magras carnes a disparar a câmara qual metralhadora pronta a dizimar exércitos inimigos. Segundo julgo saber, tais fotografias eram destinadas a encher um álbum, decerto imenso, destinado a documentar pela imagem todas as actividades escolares.
            De pasmar, era a sua memória, verdadeiramente elefantina, já que sabia de cor os nomes e números de todos os alunos, mesmo daqueles que há muito deixaram a Academia. Porém, o homem era tremendamente surdo. De tal forma, que a sua fala já era muito deficiente e difícil de perceber embora, para obviar a deficiência, usasse um aparelho auditivo
            Depois das reportagens, este incansável repórter de imagem a preto e branco vendia cópias aos alunos que desejassem. Para tal, inscreviam-se e, passados dias, as ditas eram entregues em mão a quem as tivesse solicitado, sendo o custo descontado no soldo. Eram momentos de grande confusão em que o pobre homem se via atafulhado de cadetes à sua roda, todos com pressa, por causa das aulas — as faltas de pontualidade eram motivo para acções disciplinares —. Quase sempre a confusão era enorme, pelo que, para manter a cabeça fria, desligava o aparelho para assim ter algum descanso e, paulatinamente, fazer as entregas.
            No entanto, os alunos aperceberam-se do truque e, como seria de esperar, nem sempre usavam a linguagem mais correcta na sua presença. Até que, um belo dia, um aluno, certo de que não estava a ser ouvido, perguntou-lhe:
            — Ó Apolónio, como é que está a tua mulher?
            Sem perder a compostura, mas com um ar muito sério e respeitoso, o fotógrafo respondeu:
            — Ó senhor cadete, eu tenho o aparelho ligado…
 
 

2 comentários

Comentar post