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QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

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NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

Lixo

            Pulula por aí, mesmo nas melhores livrarias, uma certa “literatura” sobre a Guerra do Ultramar. Volumes de larga lombada exibindo na capa fotografias do conflito. Por enquanto, encontrei três, todos no mesmo escaparate duma livraria. Por sinal, dois deles, sendo de editoras e autores diferentes, têm na capa a mesma fotografia.
            Comprei dois e não gostei de nenhum (nem sequer passei de meio). Tratavam-se de histórias repletas de clichés sensacionalistas onde, por exemplo, os militares de carreira são todos venais, cornudos e cobardes. Por outro lado, os restantes, coitadinhos, são os únicos a arriscarem a pele e, além disso, obrigados a cometer toda a espécie de atrocidades.
            Escritos por vezes com a vulgaridade de um carroceiro de antanho, pretendendo mostrar “outra face da guerra”, transportam-nos para uma visão deturpada, direi mesmo invertida, dos acontecimentos. Como se toda a guerra tivesse sido uma lixeira onde todos chafurdavam. Uns, à cata de lucros, medalhas e promoções e outros, quais títeres nas mãos dos primeiros, a sofrer, inocentes, todas as agruras da guerra.
            É legítimo ao ficcionista pintar, com as suas próprias cores, o seu quadro. Porque cada um terá a sua leitura. Tira aqui, acrescenta acolá, modifica, exagera, atenua, omite, inventa. Mas, se for minimamente honesto, terá de deixar transparecer algo de verdade, uma vez que a acção se situa num acontecimento marcante da nossa História recente, a guerra do Ultramar. Não se pode pintar o oceano como se fosse uma montanha. Terá de haver, na ficção minimamente séria, um fundo de verdade. Porém, já não me parece tão legítimo distorcer os acontecimentos, reais ou ficcionados, a ponto de enganar completamente os leitores. Como se a ignorância generalizada que grassa por aí fora sobre a Guerra Colonial e o 25 de Abril não bastasse.
            É que estamos a falar de uma guerra em que toda uma geração de portugueses foi sacrificada. Travada sem brilho nem convicção, diga-se em abono da verdade. Mas, no cômputo geral, as Forças Armadas comportaram-se com dignidade e deram o seu melhor. Pobres, à base de conscritos, mal armadas, equipadas e treinadas, tinham todas as razões para se sentirem desmotivadas, dado que o poder político se mostrou desde o início incapaz de solucionar o problema. Mas aguentaram-se treze anos e não foram derrotadas no terreno. Como todas, esta guerra teve os seus aspectos condenáveis. Mas não se pode tomar a árvore pela floresta. A guerra foi um erro, mas não uma lixeira.
 
            E já que se fala em lixeira, encontrei nela o lugar ideal para me ver livre de tais livros.
 

 

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