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QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

No limiar do desespero

  

          Há dias, o senhor Ministro da Defesa foi entrevistado na Televisão sobre o recentemente propalado descontentamento dos militares. Não o ouvi, já que o meu masoquismo não chega a tanto e a curiosidade ainda menos. Já sabia de antemão o que iria palrar.
          Soube mais tarde que, como esperava, o senhor referiu, à guisa de arma de arremesso, a aceitação à partida, por parte dos militares, de determinadas obrigações especiais, bem como de restrições às suas liberdades fundamentais.
          Esqueceu-se no entanto de mencionar que essa aceitação faz parte de um contrato que envolve duas partes. Por um lado, os militares comprometem-se a não fazerem uso de certos processos reivindicativos que, embora legais, não se entendem por adequados às Forças Armadas; por outro, o Estado compromete-se a não se servir dessas limitações para, pura e simplesmente, os explorar, ou mesmo desprezar.
          Ora, o que se tem verificado é que, ao longo de décadas, os militares, a par de terem de cumprir à risca obrigações que derivam da “Condição Militar”, vão perdendo regalias e poder de compra. Porém, ao mesmo tempo, outros servidores do Estado, talvez por disporem de grande poder reivindicativo, continuam a não serem atingidos nos seus interesses. E, como se tal não fosse suficiente, a classe política, juntamente com toda a multidão dos boys que se sentam à sua gamela, come e bebe à tripa forra, indiferente às dificuldades que se avolumam nos estratos mais carenciados do nosso povo, nos quais os militares estão a ser, cada vez mais, incluídos.
          Nesses termos, é mais que evidente que o Estado não está a cumprir a sua parte do contrato. À boa fé dos militares, responde com toda a sorte de artimanhas para se furtar às obrigações a que se comprometeu.
          É altura de perguntar: será que os militares ainda têm alguma dúvida de que deixaram há muito de estar obrigados a cumprir a sua parte do contrato?