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QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

NUNCA POR CALADOS NOS CONHEÇAM

Negócio difícil

            Na Guiné, uma das coisas a que tive que me habi­tuar, foi a ser cumprimentado com pompa e cir­cunstância. De vez em quando, entrava-me pela porta de armas adentro uma majestosa comiti­va. À frente, o cumprimentador. Atrás dele, o porta­dor de oferendas. Depois, um séquito mais ou me­nos nu­meroso, conforme a importância... ou os desejos. Todos vestidos a preceito com os seus vistosos al­bornozes coloridos e fartos turbantes na cabeça. Vi­nham, ce­rimoniosos e imponentes, apresentar cumprimentos ao «homem grande de esquadrão».

            As ofertas eram quase sempre dois raquíti­cos galináceos, cujo passado alimentar se adivi­nha­va pouco glorio­so. Mas nem sempre. Uma vez, dois che­fes mu­çulmanos da Mauritânia, em di­gres­são proselitista de colheita de fundos, ofereceram duas co­lheres de café de uma liga com prata. Só que de­pois deram a entender que queriam ser retri­buídos com dois tambores de gasóleo, para a via­gem de regresso. Nem mais nem menos!

            A conversa, traduzida por um intérprete, era quase sempre lacónica:

            — Sou o chefe da tabanca tal e venho cum­primentar vossa excelência (por vezes, vossa reve­rên­cia...).

            A resposta era o mais amável possível, mas de forma a evitar compromissos. Qualquer deslize, qualquer má interpretação, podia ser to­ma­da como uma oferta ou coisa semelhante. Se­guia-se o apre­ciado aperto de mão a toda a gente. Depois, con­forme o valor da oferta, retribuía-se com um ou dois quilos de arroz ou açúcar. Não se podia ser muito generoso, para evitar que os «cum­primentos» proliferassem exageradamente. Além disso, os gé­neros alimentícios que havia não se destinavam a actividades diplomá­ticas. No final da breve ceri­mónia, os embaixadores, aos salamale­ques, da­vam uns primei­ros pas­sos atrás e sa­íam porta fora à procura de ou­tro «homem grande» de mãos mais largas.

            Mas o “cumprimento” mais original que tive, foi o de um homem (acompanhado pelo seu sé­quito, bem entendido) que, após os salamaleques habitu­ais, me propôs, pura e simplesmente, que lhe cons­truísse a casa.

            Com muita paciência, expliquei-lhe que o Esquadrão era uma unidade de blindados que não tinha nem meios nem verbas para dar apoios à po­pulação. Esclareci:

            Patacão alá, a mim cá tem[1] — disse-lhe eu nos meus poucos conhecimentos de crioulo.

            Acrescentei que nem sequer estava autori­zado a des­viar recursos para esse tipo de activi­dade. Que de­via pôr o caso no Comando do Bata­lhão, ali mesmo ao lado, que tinha meios para lhe satisfazer o pedido. Que o apoio às populações era com o batalhão e nunca com o esquadrão. Mais isto, mais aquilo. Nada feito. O homem esclareceu-me que já lá tinha estado, e levado uma nega.

            Estava de pedra e cal. As chuvas estavam à porta, dizia, e precisava de fazer uma casa nova. E insis­tia:

            — Nos Nhabijões tropa está a fazer muitas casas que até são cobertas a chapa de zinco. Mais uma ou menos uma, pouca diferença faz.

            Depois de muitas explicações minhas sobre verbas e competências, apresen­tou nova proposta:

            — Então, é só ir no mato cortar os paus e o capim e trazê-los para a tabanca. Eu depois faz casa.

            A paciência ia-me faltando, mas lá lhe ex­pliquei:

            Carro tartaruga não pode ir cortar paus nem capim, seja aonde for. Patrão di mim não deixa andar carro tartaruga com paus e capim. À mim cá pude[2].

            Nova proposta:

            — Então, só cortar e transpor­tar paus.

Nova expli­cação e nova pro­posta:

            — Então, só cortar e transportar capim.

            Situa­ção de impasse. Nem eu concordava, nem ele ia embora. Finalmente, após um silêncio, o homem apresentou o seu úl­timo preço:

            — Homem grande, parte[3] dois qui­los de ar­roz.

            Perante proposta tão tentadora, fechei o ne­gócio!



[1] Não tenho dinheiro.

[2] Eu não posso.

[3] Oferece